quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Boff: Sérgio Moro é pau-mandado

Boff: Sérgio Moro é pau-mandado

Péricles Capanema

O Brasil assite atônito à inusitada tentativa de acovardar o Judiciário. Fervilham as redes sociais. Os morubixabas e corifeus da esquerda berram a todos os ventos enodoando os juízes. O manifesto “Eleição sem Lula é fraude” é disso claro exemplo.

Dou outros exemplos. Tuíte do ex-frei Leonardo Boff: “Não há nenhuma escritura que mostra Lula ser dono do tríplex de Guarujá. Nunca morou lá. Nunca dormiu lá. É condenado por ilações. Moro peca contra a virtude principal de todo juiz: a imparcialidade. Ele só persegue e quer acabar com ele. As ordens vem de cima. Ele é pau mandado”.

O velho demagogo começa assim o ataque boçal: “Não há nenhuma escritura”. Bem, escritura sem registro não garante a propriedade perante terceiros. A propriedade se prova pela matrícula (registro). Boff tem o vezo de escrever taxativamente do que não entende e sempre em mau português. Aqui repete o costume. Põe de lado um expediente antigo de malandros brasileiros: o laranja. Umas das possibilidades, o tríplex da propina (é o que dizem o chefe da OAS e outros) poderia até ficar em mãos de laranjas, nunca seria formalmente de Lula, mas o processo foi truncado.

Desce mais: “Nunca morou lá”. Existem milhares de donos de apartamentos que nunca moraram nos imóveis. “Nunca dormiu lá”. Dormir num imóvel é prova de propriedade? “É condenado por ilações. Moro só persegue [a ele]”. Mentira alvar. O magistrado condenou políticos de outros partidos, doleiros, empresários. O inescrupuloso demagogo não se detém diante da mentira descarada. As ordens vem [sic!] de cima. De fato, o português do enfurecido aldabrão tem o mesmo nível da argumentação, vale nada. Ele tem alguma prova, ou o mais leve indício, de que Sérgio Moro recebe ordens de pessoas bem situadas? É calúnia [imputação falsa de fato definido como crime]. “Ele é pau mandado”. A objurgatória suprime a decência do magistrado, reduzido a condição infame de pau-mandado. No caso, Leonardo Boff condena arrogantemente Sérgio Moro ao pelourinho da opinião pública com base em ilações delirantes. Ele pode caluniar por ilação.

A lógica impõe, as acusações valerão para os três desembargadores que julgarão o recurso em 24 de janeiro próximo, caso decidam, com base nos autos, pela condenação de Lula.

Falei em campanha de intimidação. Outro tuíte na mesma direção, agora de Emir Sader, professor aposentado da USP (é o nível a que despencou parte da intelectualidade): “Sim, Moro, o Lula tem 9 dedos (nine, como vc gosta de falar, no seu idioma preferido). Mas tem caráter integral [quis dizer íntegro, provavelmente], ao contrário de vc, juizeco a serviço da elite corrupta do Brasil”.

Pelas redes, João Pedro Stédile, líder do MST, divulgou vídeo amedrontante. Falando no plural, citou como determinação conjunta de 88 partidos e movimentos populares irem a Portuo Alegre de 22 a 24 de janeiro para deixar claro ao Poder Judiciário que “eleição sem Lula é fraude e [que] impediremos qualquer retrocesso democrático [quis dizer antidemocrático]”. O aqui soturno “impediremos” abre a porta para todo tipo de conjeturas sinistras.

São exemplos de lideranças atiçando nas bases o ódio contra o Judicário. Ou cede ou haverá consequências graves. Estamos diante de apocalíptico movimento de aterrorização do Poder Judiciário, nunca havido no País. Parece claro, seus mentores têm esperança de êxito, ainda que parcial. E também é claro, os juízes estão pensando no que poderão sofrer não apenas eles, mas os filhos, esposas, pais, parentes, amigos. Não será a primeira vez, é o que sucede ao lado, na Venezuela, aconteceu em Cuba, existe na China e na Coreia, onde governam irmãos ideológicos do PT. Roberto Veloso, presidente da AJUFE ▬ Associação dos Juízes Federais do Brasil ▬-manifestou temor generalizado na classe quanto à segurança pessoal e quanto à segurança dos prédios públicos: “As ameaças estão sendo públicas, não estão sendo veladas. Temos assistidos a vídeos com ameaças públicas”.

A esperança do PT e da frente totalitária em que se integra é, repito, pela intimidação acovardar o Judiciário. Conseguirão? Da resposta a esta questão pode depender o futuro do Brasil. Acarneirado, com a maioria do povo padecendo exclusão e preconceito ou altivo e independente.


Lembro a altaneria tranquila do Judiciário, mesmo nos tempos do absolutismo real. Anos atrás escrevi artigo, “A escabrosa desapropriação da Fazenda Limeira”, do qual pinço: “No século 18, um simples moleiro, diante da pressão de Frederico da Prússia, rei absoluto e grande guerreiro, de expropriar sua propriedade para ali fazer uma extensão do jardim do palácio de ‘Sans Souci’, negou argumentando que naquela terra seu pai havia falecido e seus filhos haveriam de nascer. O monarca absoluto insistiu, afirmando que poderia lhe tomar a propriedade. O moleiro respondeu tranquilo com palavras singelas, cujos ecos todos os séculos recolhem emocionados: ‘Ainda existem juízes em Berlim’. O rei desistiu, o moinho ficou no meio dos jardins, atestando o império da lei”. Para que a lei impere, indispensável juízes imparciais, refratários a qualquer tipo de pressão, mesmo as mais violentas. Esperemos que, passada a presente tormenta das pressões do tipo KGB ou Gestapo, possamos constatar o caminho da liberdade ainda aberto. Rezemos.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Complexo de vira-latas

Complexo de vira-latas

Péricles Capanema

De novo, mais um tropeção na ladeira buraquenta das realizações (e dos sonhos). Outra imagem, mais uma repetição no curso médio, já são várias, o aluno (o Brasil) até agora não conseguiu entrar na faculdade, faz anos lá estudam primos como a França e o Canadá. Vem ainda à cabeça a frase atribuída a de Gaulle: “O Brasil não é um país sério”. Loser. Paro por aqui, chega, tantas outras comparações deprimentes poderiam ainda ser lembradas, algumas das quais pipocam na imprensa e na rede.

Vamos ao fato. A Standard & Poor’s, agência de classificação de riscos, abaixou a nota de crédito do Brasil, de BB para BB-. O empurrão aproxima o país da zona dos caloteiros, onde estão Cuba, Venezuela, Moçambique, Angola (já sob plenos efeitos das maravilhas do socialismo), distanciando-o da região dos que têm o hábito de pagar as contas e despertam confiança nos negócios, como Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, França (que sofrem os horrores do capitalismo).

No fundo do horizonte enxergamos horrorizados a perspectiva da Brazuela, ou seja, a situação brasileira pode ficar cada vez mais parecida com a da Venezuela, onde hoje muita gente do povo briga aos tapas por comida de cachorro. Nem todos se alarmam, porém. Marcus Pestana, deputado federal tucano, estadeou sinceridade escarrapachada: “A classificação de risco que interessa à esmagadora maioria dos deputados é o risco eleitoral”. Preocupação com o Brasil, zero. Contudo, não busquemos a saída escapista, jogar toda a culpa no cangote dos políticos, somos nós que os elegemos e por nossa culpa a qualidade vem caindo. Em geral vivem em nossa região, são nossos conhecidos. E o próximo Congresso, pressentimento generalizado, terá qualidade moral igual ou inferior ao atual. Tudo isso agrava a sensação de beco sem saída.

Com o rebaixamento da nota, normal, se a direção da economia não mudar, para órgãos públicos e empresas privadas o dinheiro no Exterior vai ficar mais caro, haverá menos aplicações de estrangeiros entre nós, crescerá a desconfiança com os rumos da economia. Em suma, tendência para a carestia, menos emprego, menos renda; mais sofrimentos, especialmente para os pobres.

Em um primeiro momento, Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, jogou o fardo da culpa no Congresso. Recebeu o troco: “Resposta de um candidato, uma pena”, declarou Rodrigo Maia, presidente da Câmara. “Muitas vezes ultrapassamos os nossos limites para entregar o que a equipe econômica pedia”, rebateu Eunício Oliveira, presidente do Senado. Michel Temer entrou em campo e acabou com o bololô que piorava ainda mais a situação. Os três atores passaram a agir combinados.

Em resumo, voltou brava a sensação de que vivemos em país que não dá certo. Se quisermos, nação com a sina do azarado, que com amargura repete, Deus é brasileiro. Complexo de vira-latas. “Por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas”, definiu-a assim Nelson Rodrigues, o criador da expressão. Como deixar de ser vira-latas?

O cientista político Bolívar Lamounier arrisca explicação de fundo, aplica-se à atual situação de desencanto: “O fator preponderante nos retrocessos e rupturas sempre foi a falta de convicção das elites, sua falta do mais elementar bom senso e sua covardia quando o exercício da autoridade governamental se fez necessário. A República de Weimar e o Brasil de 1961-64 são bons exemplos. Dói constatar [...] o Brasil não se livrou de uma classe política virtualmente desprovida de responsabilidade pública”.

Ponho as palavras do cientista político como meu aeroporto a partir do qual vou tentar voar um pouco. Acho, toca em dois pontos centrais, o primeiro, elites como fator indispensável do bem comum. E a pessoa começa a pertencer è elite, quando nela brota preocupação com o bem comum. Decai à medida que vai se apagando o senso do bem comum. Falo de todos os tipos de elite, operárias, sociais, intelectuais, esportivas, militares, artísticas, empresariais, publicitárias, morais, sei lá mais o quê. Precisam ter convivência harmônica, unidas pela noção viva que a primeira entre elas é a elite moral. Enquanto o Brasil não tiver um sem-número de corpos sociais que, em cada âmbito, estimulem o movimento de ascensão, nosso futuro será de chorar. Boa parte da ascensão vem da admiração profunda pelos “role models” autênticos, faróis, a começar na família. E da família embebendo até os mais recônditos desvãos da sociedade. Nesse ambiente surgiria organicamente uma elite política benéfica ao País. A representação estaria muito mais ligada à excelência que ao dinheiro, a táticas eleitorais, a recursos publicitários. Assim e não batendo pé nos ataques bestas às zelite, encontraríamos rumo.

Vou me fixar agora em um aspecto do assunto. Lamounier fala de covardia, falta de elementar bom senso, inexistência de responsabilidade pública na classe política brasileira. Tem razão, acrescento um ponto. Lembrou-me livro, publicado em 1927, que fez furor na França e na Europa, La trahison des clercs de Julien Benda. Clercs aqui quer dizer intelectual, homem das letras. Entre outros aspectos, Julien Benda falou ali da tendência que tem o intelectual à covardia e à falsidade. O que nos empurra para a necessidade dos bons hábitos morais. Subjacente a qualquer programa de governo estão os bons costumes. Sem bons costumes, até o melhor programa fracassará.


Por que digo tudo isso? Para propor uma medida prática. Brasília vive imersa na corrupção, está ali nos dirigentes quase morto o senso do bem comum (o segundo ponto do texto comentado). Apenas um exemplo: temos 60 mil assassinados por ano no país, nas estradas morrem cerca de 50 mil, 600 mil ficam lesionados, gravemente ou nem tanto. De cada dez motoristas parados na virada do ano, seis foram autuados (ou sejam, apresentavam riscos ou estavam ilegais). Não desperta horror, mas é um quadro terrível de desordem, indisciplina, falência do poder público, acobertado pela impunidade e corrupção. Nesse ambiente, como evitar o complexo do vira-latas? Pelo menos tentemos votar direito (moralidade + iniciativa privada), as eleições estão na porta. E procurar que outros em nosso círculo de relações também o façam. Já seria um bom começo.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Juízes federais enodoados como facínoras

Juízes federais enodoados como facínoras

Péricles Capanema

O PT lançou a campanha “Cadê a prova?”. Que prove do próprio veneno, faço a mesma pergunta tendo como objeto o manifesto “Eleição sem Lula é fraude” lançado em 19 de dezembro último, que está sendo largamente difundido ▬ adesões, nem tanto, até agora menos de 200 mil, apesar da propaganda maciça e facilidade de firmá-lo. Conta com assinaturas de políticos, celebridades, empresários, entre eles, José Mujica, Cristina Kirchner, Rafael Correa, Chico Buarque, Celso Amorim, Fábio Konder Comparato, Noam Chomsky, Luís Carlos Bresser Pereira e vai por aí afora. Em resumo, o texto é uma vergonha de português, lógica e probidade.

A frase inicial é uma tolice palmar: “A tentativa de marcar em tempo recorde”. Ninguém tentou nada. Houve, isso sim, decisão pública, o julgamento está marcado para 24 de janeiro, começará às 8h30 na sala de sessão da 8ª Turma, na sede do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), em Porto Alegre.

Logo a seguir, mentira deslavada, “em tempo recorde”. Vai contra os fatos. A defesa do ex-presidente Lula peticionou ao TRF-4 levantando a suspeita de que era inusitada a pressa com que foi marcado o julgamento do recurso. A resposta da Corte, pelo seu presidente, 113 páginas, esfarinha a alegação de pressa indevida (está na rede). O manifesto das esquerdas mundiais (vamos batizá-lo assim) por probidade deveria quando menos aludir ao mencionado texto. Nem uma palavra. Et pour cause.

Segundo o desembargado Thompson Flores, “o requerente, em síntese, questiona a celeridade impingida ao processamento”. Destaco alguns trechos da peça: “Destarte, o tempo de processamento da Apelação Criminal nº 5046512-94.2016.4.04.7000 perante esta Corte não fere o princípio da isonomia. Como já referido, 1.326 apelações criminais foram julgadas por este tribunal no ano de 2017 em tempo inferior àquele em que se realizará o julgamento da Apelação Criminal”. Afirma ainda que se, por acaso, tivesse havido celeridade inusual, atenderia a diretriz do Conselho Nacional de Justiça. Seria portanto ato de obediência e disciplina: “A Meta 4 do CNJ diz in verbis: Priorizar o julgamento dos processos relativos à corrupção e à improbidade administrativa”.

Ainda a respeito, a resposta transcreve parte da situação atestada em inspeção recente do Conselho Nacional de Justiça no gabinete do desembargador João Pedro Gebran Neto: “Observa-se que tanto os processos antigos quanto os mais recentes estão sendo devida e diligentemente julgados”. De outro modo, a celeridade, comprovada em inspeção oficial, é característica do gabinete que vai julgar a apelação apresentada pelos advogados de Lula. E conclui o desembargador: “A celeridade no processamento dos recursos criminais neste Tribunal Regional Federal constitui a regra e não a exceção”.

Retorno ao manifesto de português primário, lógica estropiada, carente de escrúpulos: “A tentativa de marcar em tempo recorde para o dia 24 se janeiro a data [quis dizer, para 24 de janeiro o julgamento] em segunda instância do processo de Lula nada tem de legalidade [quis dizer, nada tem de legal]. Ou seja, o documento garante sem nenhuma prova, sequer o mais tênue indício, que o TRF-4 agiu fora da lei.

Continua o tal manifesto: “Trata-se de um puro ato de perseguição da liderança política mais popular do país”. Puro ato de perseguição, a saber, sem nenhuma base jurídica. Retorna a acusação gravíssima, o juiz Sérgio Moro e os desembargadores do TRF-4 são marionetes a serviço de uma força aqui inominada que persegue Lula. De novo, cadê a prova? Cadê o mais tênue indício?

O texto continua desembestado em português pavoroso e na mesma falta de escrúpulos: “O recurso de recorrer ao expediente espúrio de intervir no processo eleitoral sucede porque o golpe do Impeachment de Dilma não gerou um regime político de estabilidade conservadora por longos anos”. Vejam bem, lançar mão de expediente espúrio no caso equivale a determinar a condenação no julgamento do recurso. Onde fica a probidade dos magistrados, pintados aqui como paus-mandados para qualquer tarefa suja? Cadê a prova?

Agora, olhar rápido na redação, deixo de lado muita coisa, o português está no mesmo nível da decência do texto. “O recurso sucede”; “a trama de impedir a candidatura de Lula vale tudo”. “A trama vale tudo”, vale até redação de chorar. E nessa trama, o manifesto não diz desse modo por não conseguir exprimir com clareza ▬ atrapalhado pelo primarismo boçal da redação ▬ mas quis dizer, “[vale a] condenação no tribunal de Porto Alegre”. De novo, o insulto, o TRF-4 retratado como marionete de trama ignóbil. Quem maneja a trama tem os juízes na mão. Eles fariam, por dinheiro, ou pelo que seja, o que lhes for ordenado.

Para vergonha dos brasileiros que prestam, acusação desse naipe, infelizmente avalizada por figuras em destaque no Brasil e no Exterior, reverbera com maior facilidade nas redes sociais, nas conversas, na imprensa tradicional, enfim em todos os lugares. Trabalha a favor de generalizado enxovalhamento do Judiciário.

O mesmo: “Mais que um problema tático ou eleitoral, vitória ou derrota, nossa luta terá consequências estratégicas e de longo prazo”. “Mais que um problema nossa luta terá consequências”. Entendeu alguma coisa? Nada, claro. Não é para entender, a redação é disparatada de alto a baixo.


A peça demagógica e delirantemente acusatória só não tem provas e português minimamente apresentável. Aliás, vou ser modesto. Já me contentaria com indícios, mesmo os mais tênues. Cadê o mais tênue dos indícios do que acusa copiosamente?

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Entre lá e cá, muita diferença há

Entre lá e cá, muita diferença há

Péricles Capanema

Em fins de 2017 Malcom Turnbull, primeiro-ministro da Austrália, denunciou o óbvio ululante, calado pela imensa maioria dos dirigentes contemporâneos. Dos políticos brasileiros no governo, então, nenhuma exceção, o silêncio é total sobre matéria que têm por dever tomar posição. Preocupa ainda o mutismo de setores com responsabilidade institucional relativa à independência e segurança nacionais.

Aliás, já tratei desse óbvio algumas vezes, a primeira em 15 de dezembro de 2015 (Desnacionalização suicida); versava sobre a expansão imperialista da China comunista, no Brasil em especial pela compra de amazônicos ativos por estatais chinesas. Naquela ocasião, observei: “Na década de 70 foi usual a palavra finlandização. A Finlândia havia perdido mais de 10% de seu território para a Rússia, quase 20% de seu parque industrial e, pelo temor do vizinho ameaçador e poderoso, acertava sempre o passo com Moscou, não importava o que fizessem os tiranos comunistas. Aquele antigo e civilizado país, formalmente soberano, de fato padecia uma forma larvada de protetorado. [...] Com a enorme e cada vez maior presença econômica do Estado chinês entre nós, vai chegar o dia em que o país, em numerosos assuntos internos, vai ter diante de si potência mundial imperialista. [...] Está em curso entre nós um processo que vai levar à perda efetiva da soberania nacional. No fundo do horizonte, terrível perspectiva, nos espera o protetorado envergonhado, mesmo que cuidadosamente disfarçado”.

Agora tenho companhia para gritar comigo, uma delas, a maior autoridade de um dos grandes países do mundo. Que sua advertência sirva de exemplo para nós aqui no Brasil e alhures. Tinham endereço certo as palavras do político australiano sobre “tentativas sem precedentes e crescentemente sofisticadas para influenciar o processo político”. Referiu-se ainda a “inquietadores informes sobre a influência chinesa”. Estava claro, os relatórios preocupantes tinham origem nos serviços de inteligência do País. Não espanta pois que Feng, professor de estudos chineses em Sidney, tenha constatado, mais de 90% das dezenas de grupos da comunidade chinesa no país são controlados por Pequim.

No Japão, Michael Danby, deputado no Parlamento australiano, ecoou as advertências de Tornbull. Fez duro discurso contra o perigo chinês não apenas na Austrália mas em todo o Sudeste asiático e no Pacífico em geral. Acusou a China de estar agindo como um novo Komintern (a antiga internacional comunista), com presença crescente na economia e na política. Afirmou ainda que tais esforços são parte da estratégia do PC chinês de “competir com os Estados Unidos globalmente”. Nesse contexto, políticos no Parlamento da Down Under trabalham para aprovar legislação que dificulte a ação imperialista da China na Austrália.

Não é diferente a situação na Nova Zelândia. Cresce ali a consciência do perigo, mas, de outro lado, é generalizada a impressão, o governo já não tem liberdade inteira para agir em defesa dos interesses do País diante da presença intimidante e (vamos usar a palavra precisa) chantageadora da China. A professora Anne-Maria Brady da Universidade de Canterbury, das mais ativas na denúncia da ameaça chinesa, julga que o governo já concordou, quando nada tacitamente, na aplicação de uma política comum que ela intitula “de não surpresas”. Eventuais advertências sobre a ingerência chinesa serão sempre expressas privadamente. Exemplo desse fato, nos últimos meses os serviços de inteligência da Austrália e da Nova Zelândia advertiram os dois governos sobre a crescente e preocupante intromissão chinesa nos assuntos internos dos dois países. A ASIO (Australian Security Intelligence Organisation, em português Organização Australiana de Inteligência de Segurança) colocou em seu relatório anual destinado ao Parlamento que governos estrangeiros tentam influir abusivamente no país representando “ameaça para nossa soberania, integridade das instituições nacionais e exercício dos direitos dos cidadãos”. Em outubro último, Duncan Lewis, chefe da ASIO, advertiu parlamentares australianos que é necessário estar “muito consciente das possibilidades de interferência estrangeira em nossas universidades”. Um dado revelador, a Dollars and Democracy Database da Escola de Direito de Melbourne pesquisou, 80% das doações na Austrália para campanhas políticas dos dois grandes partidos provenientes do Exterior entre 2000 e 2016 tiveram como origem a China comunista. Relatórios cobrindo a imprensa, o mundo dos negócios e as universidades constatam a mesma busca de predomínio. Setores na Austrália se alarmam e gritam. Na Nova Zelândia, com situação semelhante, mutismo total na classe política. Não parecem ser os primeiros sintomas do que chamei acima “protetorado envergonhado, mesmo que cuidadosamente disfarçado”? Finlandização.

A situação da Nova Zelândia levanta gravíssimo problema para a segurança do Ocidente. Cinco países de língua inglesa, aliados especialmente próximos, Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Austrália e Nova Zelândia compartilham dados de seus serviços de inteligência (a chamada Five Eyes Intelligence). Se a Nova Zelândia permitir a crescente ingerência chinesa em alto nível, poderá ser impelida a compartilhar dados sensíveis com a China, parte dos quais recebidos dos outros quatro. Transformar-se-á no que em inglês se chama o soft belly (ventre mole). A carapaça cobre todo o jacaré, menos o ventre, vulnerável às flechas. Por ali é facilmente morto. Continuará a existir a confiança entre os cinco? Ou a prudência  daqui a pouco comandará atitude diversa?

Poderia continuar indefinidamente historiando fatos na Nova Zelândia e Austrália que reverberam no Congresso dos Estados Unidos e provocam faíscas na Inglaterra e até na Alemanha. Mas preciso parar, falta espaço. E é claro, a respeito de tudo isso, a China comunista contrataca, atribuindo as reações à paranoia, ao macartismo e ao racismo. Dispõe de cartas importantes na manga: é o maior parceiro comercial da Austrália, o maior parceiro de bens com a Nova Zelândia e o segundo de serviços. Aliás, o mesmo vale para o Brasil.

Contudo, ainda transcrevo pequena parte do há pouco divulgado estudo feito pelo Eurasia Group para 2018 (está na rede), em geral considerado o mais importante instituto de análise de riscos. Assinala: “O modelo político da China agora está sendo tido vigoroso como nunca antes ▬ numa ocasião em que o modelo político dos Estados Unidos está enfraquecido”. Continua: “A China está assinando cheques e criando um estrutura global de poder, enquanto outros estão pensando bilateralmente ou localmente. O modelo gera interesse e imitadores, com governos na Ásia, África, Oriente Médio, América Latina, tendendo mais em direção às preferência de Pequim. Desde 2008, observamos uma erosão gradual da percepção global sobre a capacidade de atrair das democracias liberais do Ocidente. Agora existe uma alternativa viável. Aqui está o maior risco de 2018”.

Lá. No geral, a Austrália toma medidas sérias, são feitas a respeito reuniões no Congresso dos Estados Unidos. O em geral tido como mais importante instituto de análise de riscos coloca a ascensão da China como o maior  risco de 2018. Cá. No Brasil, muitos gabarão os investimentos chineses (mutismo sobre o comando deles por governo e Partido Comunista chinês). Serão comuns hosanas à habilidade de nossos diplomatas, governo e empresários no fortalecimento dos laços comerciais com a China. Nada ou quase nada se encontrará sobre a cautela que toma a Ásia, setores da Alemanha e dos Estados Unidos.

As muitas diferenças entre lá e cá não nos lisonjeiam. Na cara, sintomas de despertar. Na coroa, superficialidade, cegueira e desleixo; deixo de lado cumplicidades eventuais.


Epa, esperem. Terminava o artigo, abri o Estadão. Na página dois, Sérgio Amaral, embaixador em Washington, “em caráter pessoal”, trata da volta do mundo bipolar ▬ agora Estados Unidos versus China. Fecha o artigo assim: “Em seguida [a China] expandiu-se pela África e agora avança na América Latina, como ilustra a magnitude dos investimentos chineses na região”. Grande passo, tomara, nosso embaixador na principal capital do mundo, por fim também enxerga o óbvio.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A voz que clama no deserto

A voz que clama no deserto

Péricles Capanema

Sempre me chamou a atenção a resposta de são João Batista aos enviados dos fariseus. À pergunta: “Que dizes de ti mesmo? Quem és, pois, para que possamos dar resposta aos que nos enviaram?”, ele evitou começar pelo mais natural: “Sou o filho de Zacarias”. Zacarias, sacerdote conhecido em Jerusalém, pertencia à elite sacerdotal. Era boa abertura. Ele pôs de lado a estrada fácil e começou pelo enunciado da missão: “Eu sou a voz que clama no deserto”.

Sei, é conhecido, o Evangelista quis enfatizar a ligação do homem com profecias bíblicas, em especial Isaias: “Voz que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai na solidão as veredas do nosso Deus.” João se apresentava tão-somente como o Precursor do Messias, anunciado por Isaias.

Mas eu tenho aqui outro intento, passar ao lado de fatos já bem analisados e, por uma vez, desviar a atenção para aspectos pouco destacados. Quem tem alguma coisa a anunciar vai para praças com multidões, miolos de cidades, encruzilhadas muito percorridas. Não se esconde em um deserto, onde quase ninguém mora, ainda que não distante do rio Jordão, pois são João nele batizava. Clamar ali? À primeira vista, pouca gente iria ouvi-lo, fracasso certo. Não aconteceu.

Ficou conhecido, arrebanhou gente, teve seguidores, virou pregador célebre naquele meio. Pelo menos dois de seus discípulos seguiram a Cristo. Um foi o apóstolo santo André, irmão de são Pedro. Foi atrás do irmão e o levou a Nosso Senhor. E ali mesmo foi proclamado futuro Papa: “Tu és Simão, filho de João, serás chamado Cefas (que quer dizer pedra)”. Por meio de são João, o futuro primeiro Papa foi encontrado. Com tudo o que daí decorreu.

Para muitos de seus contemporâneos teve fracassos, até o último, definitivo: perdeu a cabeça ▬ literalmente e não metaforicamente, manteve-a fria ▬, por causa de uma adúltera. Assim é a história. Alimentando-se de mel silvestre, vestido com pele de carneiro, asceta, voz poderosa, o filho de santa Isabel devia chamar muito a atenção. Até Herodes, tetrarca da Galileia, rei sibarita, gostava de ouvi-lo. E levava séquito. Nele estava, para presenciar o espetáculo, Herodíades, mulher do irmão Felipe, com quem Herodes passara a viver pública e escandalosamente.

João não se calou: “Não te é lícito ter a mulher de teu irmão”. Desvairada pelas contínuas chibatadas morais, a mulher logrou que o amante mandasse prender são João. Mas não conseguia a morte. Era demais. Herodes, fraco e devasso, tinha traços retos. “Herodes temia João, sabendo que era varão justo e santo; e defendia-o, e pelo seu conselho fazia muitas coisas, e ouvia-o de boa vontade”.

Situação de desfecho indeciso, mas raras vezes os fracos de vontade se opõem vitoriosamente aos ruins de vontade forte. Houve a festança do aniversário do déspota, patuscada com bebedeira, música e danças. O número de dança de Salomé, filha de Herodíades, fascinou o tetrarca que, no meio dos vapores etílicos, disse à moça: “Pede-me o que quiseres e eu to darei e juro-lhe: tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade de meu reino”. A dançarina buscou conselho com a mãe e o obteve imediato: “A cabeça de João Batista”. Herodes entristeceu-se, o pedido estava fora da conta. Mas mesmo assim mandou assassinar João Batista e a cabeça em bandeja foi oferecida a Salomé.

João Batista era primo de Nosso Senhor, que o glorificou: “Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas, que fostes ver? Um homem vestido de roupas finas? Mas os que vestem roupas finas vivem nos palácios dos reis. Então, que fostes ver? Um profeta? Eu vos afirmo que sim, e ainda mais do que profeta. Na verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não apareceu nenhum maior do que João, o Batista.”

Nunca encenou. A vida de são João evidencia o vazio atroz das representações, mesmo as supostamente virtuosas. Ele tinha um grande fato diante de si: o Messias estava entre eles. O povo, para recebê-lo bem, precisava antes de tudo de boas disposições. E são João  Batista ia direto aos pontos fundamentais, cuja falta impediria todo o resto. Pregava a mudança de vida e a penitência. Tenham vida direita, arrependam-se dos pecados, façam penitência.

Clamava no deserto, possivelmente pouco ouvido. Pregava verdades de restauração austera, onde era difícil até a vida animal. Por que procurar os centros das cidades? Não era ali o seu meio. Nada prometia como retorno imediato. E para tal não buscava o apoio dos homens nem das realidades humanas. Por que lembrar que era de família conhecida em Jerusalém? Por que cocorar Herodes, o rei? Tinha um caminho reto e era por ali que andaria. O Natal está cheio de lições assim. Uma delas, nascer o Salvador numa gruta, e ser abrigado numa manjedoura, utilizada pela criação.


Quanto tudo parecer perdido, se o dever indicar, mesmo sem apoios, é preciso continuar a clamar no deserto. Vai dar certo, deu certo com são João. A régua da vida sobrenatural é diferente da que mede as realidades naturais.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A autenticidade contra a mistificação

A autenticidade contra a mistificação

Péricles Capanema

A última Veja, 20 de dezembro, nas Páginas Amarelas traz entrevista de Fernando Segóvia, novo diretor-geral da Polícia Federal, dos mais delicados e importantes cargos na estrutura do poder brasileiro, especialmente em tempos de Lava Jato e operações assemelhadas.

Relata o dr. Segóvia que, antes da nomeação, foi chamado ao gabinete do Presidente, encontro longo, duas horas e meia. Conversa vai, conversa vem, Michel Temer discretamente ia sondando.

Pergunta da Veja: “O presidente Michel Temer lhe fez alguma recomendação”?

Resposta do dr. Segóvia: “A única coisa que ele falou foi sobre a necessidade de uma política republicana.”

Santo Deus! Uma política republicana também na Polícia Federal. De passagem, este clichê não morre. Já Gilberto Amado relata que em 1913 havia insinuado a Pinheiro Machado um nome para o Supremo e o caudilho recusara sob a alegação de que não era bom republicano. “Vosmecê não conhece este sujeito, mau republicano, seria mau juiz”. Estamos já entrando em 2018 e a cantilena continua viva. Viva, não, vivíssima. Com um porém. Só em meios oficiais e na imprensa. Notei em artigo anterior ▬ Negócios nada republicanos ▬ sobre o mesmo tema: “Fui ao Google e coloquei nada republicano, nada republicanos, nada republicana, nada republicanas. Milhares de entradas. Contudo, nunca ouvi ninguém em meus círculos empregar a expressão. Sintoma de que é muito utilizada na opinião que publica, pouco ou nunca na opinião pública.” Quando você que agora me lê alguma vez ouviu em seus ambientes um outro dizer, tal pessoa tem conduta republicana? Ou que não segue a ética republicana? Nunca, né? De outro jeito, o povo jamais a utiliza e é simples a razão, não tem pé nem cabeça.

Stalin, assassino, psicopata, tirano monstruoso, considerava altamente elogioso dizer que agia como um comunista. Pior que agia, seguia na trilha de Lênin. Está na substância da conduta comunista a intolerância, o assassinato, a ditadura, a perseguição aos ricos e o empobrecimento cruel dos pobres. Bom é o que o Partido faz; mal, o que fazem seus adversários. Aqui no Brasil tivemos reflexos disso nas administrações petistas.

Com o prontuário da República brasileira (já falei sobre isso no tal artigo), dá calafrios essa repetição mistificadora. Republicanismo, ética republicana, conduta republicana, sei lá mais o quê. Slogans vazios. Aliás, no caso, vazio já é exagerado. São slogans despropositados, de conteúdo sujo, basta ver o histórico nosso. E já desde o início. Logo após o golpe de 15 de novembro, os encarapitados no poder inauguraram a prática do mensalão. Ofereceram a dom Pedro II, que fora escorraçado para a Europa e partia pobre, um bom dinheiro. Resposta do monarca, que recusou a oferta: “Com que autoridade estes senhores dispõem do dinheiro público?”.

Esta utilização abusiva é mais um exemplo de novilíngua (temos hoje milhares deles). Como sabemos, o termo foi cunhado por George Orwell no romance 1984, para designar a atmosfera de hiperautoritarismo que via como ameaça próxima para a humanidade. O significado normal da palavra nada tinha a ver com o que determinava o Partido e acreditavam os cidadãos. Um exemplo, pretobranco. Quando aplicada a um adversário, faz afirmar que negro é branco, apesar da realidade evidente. Quando utilizada para qualificar um membro do Partido, mostra a lealdade ao garantir que preto é branco (caso seja exigência do Partido). Significa ainda estar certo, preto é branco, saber que preto é branco e permanecer convicto que jamais foi o oposto. Com isso, o Partido limitava as possibilidades do raciocínio e eliminava a autonomia. Sempre é grave a manipulação da linguagem, vulnera até o caráter.

Uma das formas de sanear a vida pública brasileira, grande avanço, seria o cultivo do gosto do autêntico, do real, da expressão ‘decidora’ e exata, aliado à fuga do preconceito (o preconceito besta de que, sem exame, a república moderna é forma superior de governo), da discriminação e do unilateralismo. Continuamos aqui e em vários outros pontos, chapinando no brejo do retrocesso e do anacronismo.

Lembro o óbvio ululante. O português está lotado de palavras que dizem o mesmo que se quer significar com o despautério da conduta republicana e expressões de raiz idêntica. Bastaria empregá-las. Algumas delas, administração honesta, decente, proba, íntegra, limpa, obediente às leis.  Seria normal, por exemplo, o Presidente afirmar ao delegado federal que na conduta do importante órgão fazia questão da isenção, do respeito às leis. E também era ponto destacado, fugir como o diabo da Cruz dos nossos hábitos republicanos. Aí seria tranquilizador.

Continua a resposta do dr. Segóvia ao questionário da Veja: “Eu respondi: Lógico, Presidente. A PF tem de seguir a Constituição, as leis do País. Pode estar certo de que, se eu for escolhido, vou fazer da Polícia Federal uma polícia republicana”.

A Veja então atacou: “A PF, então não é republicana?” Acalmaria uma resposta assim: “Ainda é um tanto republicana, mas vou trabalhar duro para fugirmos desse pântano. Terra seca e firme, nosso objetivo”.

O dr. Segóvia caminhou atoleiro adentro: “A Polícia Federal é republicana, mas tem alguns problemas. A gente vê, de vez em quando, desvios de conduta e ações com certo viés político”.

Por essas e outras, continua atual a observação de Ulisses Guimarães. Nos anos 80, quando alguém chiava a respeito do baixo nível do Congresso, o experiente político costumava responder: “Espere o próximo”. Seria uma quasi lex, praticamente uma lei da representação popular no Brasil para valer nos tempos da República: o próximo Congresso é sempre pior ao atual. Temerosos, esperemos o que nos reservam as urnas de outubro de 2018.


O início da sabedoria é o temor de Deus, ensina o Livro dos Provérbios. Na ordem temporal, no início da sabedoria está o temor da manipulação da linguagem. E seu combate. Receio e luta aplainam caminhos. Logo depois o texto bíblico ajunta, a ciência dos santos é a prudência. Ciência dos santos e de quem teme mistificações. Programa útil, ser ambientalista do espírito, reclamar oxigênio na vida pública. Santo Natal e bom Ano Novo para todos.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Feliz Natal, votos de festas sérias


Feliz Natal, votos de festas sérias

Péricles Capanema

Anima ouvir feliz Natal. Soa agradável Natal de muita saúde e paz.  Santo Natal, expressão afável, cada vez menos comum. Escutei sem-número de vezes votos de alegre Natal. Óbvio, jamais me deram votos de tristes festividades natalinas.

E nem de sério Natal. Cairia estranho, poderia parecer censura a um brincalhão. Pensando bem, nem tão estranho assim. Pelo menos uma vez, gostaria que alguém me tivesse dito: “um sério Natal”.

Desejar feliz Natal é querer as festas em ambiente leve. Sério Natal, que continuem presentes as graves questões que povoam a vida de cada um de nós. Gravidade e leveza não se excluem, nunca se excluíram, complementam-se. Leveza sem gravidade despenca para a leviandade. Gravidade sem leveza descamba para caturrice. Sábia é a pessoa que alia leveza e gravidade. Minha ambição hoje é alcandorar a seriedade, raiz da sabedoria, caminho para a felicidade. Se conseguir bem, será brilhante bola vermelha na árvore da sala, meu presente de Natal para os leitores.

Já no começo, faz falta acabar com a confusão entre alegria e felicidade. Em geral, as pessoas querem ser vistas alegres para assim parecer felizes. E é comum um abismo entre as duas realidades. Le bonheur n’est pas gai (a felicidade não é alegre), frase que retumbou mundo afora, resumia o filme Le Plaisir, baseado em três contos de Guy de Maupassant. Continuando no tema, mudo o cenário. Li, faz pouco, o mesmo por aqui: “Sou alegre, mas não feliz”, lamento de Dadá Maravilha, o futebolista folgazão. O mais alegre dos jogadores se vê como um infeliz.

Uma mãe que trabalha de sol a sol para pagar os estudos da filha aplicada pode não estar alegre, mas será intensamente feliz, animada com o cumprimento do dever e por abrir boas perspectivas para a moça. Todos percebem, o esforço e o dever estão mais ligados à felicidade que à alegria. Enfim, são várias as formas de alegria. A felicidade pode ser alegre, pode estar triste, pode brilhar num rosto esgotado. Um menino brincando sozinho com um carrinho em geral tem semblante sério e feliz. Nietzsche afirmava, o homem se torna maduro quando reencontra a seriedade que tinha quando brincava em criança. Temos aqui, não a procura, mas o reencontro de um tempo às vezes perdido durante a adolescência e a juventude. O Natal autêntico tem isso, festa familiar com nota infantil séria. A alegria natalina ▬ calma, temperante, esperançosa, entendendo o sofrimento ▬ é átrio para entrar no palácio da felicidade.

Sem seriedade, não alcançamos ser felizes. A alegria contemporânea desembesta para o rumo oposto. Para esconder a infelicidade, procura saída artificial, aparece vestida com roupagem extravagante. Basta examinar os role models atuais, celebridades do entretenimento em primeiro lugar, a mais de outras nos mais multifários espaços da vida humana. Inautênticos, estadeiam estilos de vida estapafúrdios, sorrisos exagerados, risadas desatinadas. Ali pululam as drogas, o suicídio, as separações matrimoniais contínuas, tanta coisa mais. O que são em suas representações enganadoras? Embusteiros, alguns geniais, juntos na promoção de uma fraude.

O bem não faz barulho e o barulho não faz bem, escreveu são Francisco de Sales, o suave doutor da Igreja. Discreta, a verdadeira felicidade pode conviver com a tristeza, a dor, o fracasso; também com a alegria, os êxitos, as grandes conquistas. Mas sempre se manifestará veraz. Assoma agora à porta uma irmã da seriedade, a autenticidade, saudemo-la.

Verazes, autênticos e sérios caminhemos até a manjedoura onde dorme placidamente o Menino-Deus. Súplices, peçamos a Ele que nos sustente em todos os passos da peregrinação ao encontro da Felicidade infinita.