quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Adiamento perigoso

Adiamento perigoso

Péricles Capanema

Não vou tratar hoje de assunto agradável. Momentoso, sim, necessário; para muitos, distante. Em 30 de setembro de 1938 Neville Chamberlain, primeiro-ministro inglês, voltando de Munique, após encontro com líderes da Alemanha, Itália e França, pronunciou célebre discurso prometendo “paz para o nosso tempo”. As tratativas do premir inglês, levadas a cabo no quadro da política de appeasement, pareciam ter varrido do horizonte o monstro da guerra na Europa. Um ano depois, na madrugada de 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia. Em resposta, a França, o Reino Unido e a Commonwealth declaravam em 3 de setembro a guerra à Alemanha. Começava a 2ª Guerra Mundial.

Na ocasião isolado e incompreendido, um velho político inglês trovejou contra os chamados acordos de Munique: Winston Churchill. A ele foi atribuída a frase endereçada a Chamberlain: “Tínheis a escolher entre a vergonha e a guerra. Escolhestes a vergonha, tereis a guerra”. Retrata com fidelidade sua posição no Parlamento ninado pelo fascínio da paz. De fato, afirmam estudiosos da obra do antigo primeiro-ministro, tal frase nunca foi dita, a legenda terá origem em carta de 13 de agosto de 1938, endereçada a Lloyd George: “Penso que nas próximas semanas teremos de escolher entre a guerra e a vergonha e tenho poucas dúvidas sobre qual decisão tomaremos”. A legenda tem direitos, simpáticos, aliás; tantas vezes põe cor, relevo e nitidez na realidade.

Desde a ascensão do nazismo ao poder, Churchill lutara pelo rearmamento inglês e recusava contemporizações que, para ele, tornariam mais devastador, sofrido e problemático o confronto que via inevitável. Na prática, a Alemanha nazista se utilizou do tempo ganho nas tratativas para se armar ainda mais e preparar melhor as agressões.

Como pesadelo, tudo isso me veio à cabeça ao ler as sanções impostas de forma unânime pelos 15 membros Conselho de Segurança da ONU à Coreia do Norte, como resposta à explosão da bomba nuclear em 3 de setembro último. É a sexta bomba coreana e a nona sanção da ONU, a primeira de 2006. Em cada vez, a situação se apresenta mais grave.

Para obter a unanimidade no Conselho de Segurança, os Estados Unidos aceitaram aguar a proposta inicial. Por causa da oposição da Rússia e da China, desistiram da suspensão total das exportações de petróleo para a Coreia do Norte e congelamento dos bens do ditador Kim Jong-Un. Liu Jieyi, embaixador da China, reiterou que a solução da crise deve ser por meios “pacíficos, diplomáticos e políticos”. Enfatizou ainda que outros países não devem buscar o fim ou o colapso do regime de Pyongyang, nem defender a reunificação apressada da península. Em resumo, duas condições inegociáveis impostas pela China: fica o regime, fica Kim Jong-Un. Terceira, a reunificação por enquanto não está na pauta.

Quanto às sanções, elas proíbem importações de produtos têxteis da Coreia e suspendem novas contratações de trabalhadores norte-coreanos no Exterior. Ninguém garante que a China, nem países da região as respeitarão. Como Cuba com seus médicos, para funcionar no mínimo, a Coreia do Norte precisa mandar trabalhadores para o Exterior, retendo (expropriando) o grosso do salário. Trabalham 95 mil coreanos fora, a maior parte na Rússia e na China. A resolução limita ainda a venda de petróleo à Coreia do Norte, o teto ficou em 2 milhões de barris por dia para produtos refinados. Também não há certeza de que a China, a maior fornecedora, obedecerá ao limite.

Nem vou continuar. Em artigo para o Washington Post intitulado “Por que as sanções não funcionam?”, reproduzido no Estadão, 15 de setembro, Adam Taylor constata: “A Coreia do Norte está sob sanções da ONU desde 2006. Com o tempo elas se tornaram mais fortes e outros países e entidades, incluindo Estados Unidos e União Europeia também impuseram medidas unilaterais”. O articulista põe o dedo na ferida: “China e Rússia, dois dos mais importantes parceiros comerciais da Creia do Norte, hesitam em aplicá-las”. Em parte, sanções para inglês ver.

A reação da Coreia do Norte foi violenta, compõe bem o cenário. Prometeu acelerar o programa nuclear, “redobrar esforços para incrementar seu poderio”. Nada de inesperado.

Os Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão afirmaram estar preparados para fazer mais pressão, caso Pyongyang se recuse a cessar o desenvolvimento de seu arsenal nuclear. Daqui a um ano, dois, quando se constatar que a Coreia não mudou o rumo, a situação estará pior que hoje. Virão novas sanções? E assim, até quando?

Claro como água do pote, a Coreia do Norte está caminhando para ser potência nuclear com capacidade de transportar bombas em foguetes transcontinentais. E, como reação lógica, está crescendo no mundo político e na opinião pública em geral no Japão e na Coreia do Sul a exigência de que esses dois países se armem nuclearmente. No futuro, ruminam, o que poderá valer o guarda-chuva norte-americano, seguro por líderes que bradam o “America first”?


Parece-me óbvio, os Estados Unidos têm os meios para resolver a contento a questão. Preocupa, cada adiamento aumenta em muito os custos da solução. Lembro outra frase de Winston Churchill: “Você pode sempre confiar em que os norte-americanos farão a coisa certa ▬ depois de tentarem todo o resto”.

domingo, 10 de setembro de 2017

O dever de ajudar a Venezuela

O dever de ajudar a Venezuela

Péricles Capanema

Normal seria hoje comentar a sórdida corrupção revelada nos últimos dias. Contudo, não será meu foco. Quero falar de fato alvissareiro.

Do pântano, destaco, porém, andrajo enlameado, não o vi ainda apontado: a indiferença suicida. Antônio Palocci falou do “pacto de sangue” entre Emílio Odebrecht e Lula. Sponte propria, o dono da empreiteira teria oferecido ao ex-presidente, no intuito de preservar a relação privilegiada da empresa com o governo, pacote que incluía um sítio (presente pessoal), a sede do Instituto Lula, palestras a R$200 mil líquidos, pagos os impostos, e ainda R$300 milhões, uso livre, para custear atividades políticas (claro, poderia também cobrir gastos pessoais).

Em apenas uma das doações, um dos maiores representantes do macrocapitalismo brasileiro pôs R$300 milhões à disposição da propaganda petista. É montanha de dinheiro para dar popularidade a programa que acarreta empobrecimento generalizado, atraso e sofrimento para o povo em geral. Clara opção preferencial pela pobreza e tirania, como em Cuba e Venezuela, onde, aliás, a Odebrecht financiou generosamente as campanhas de Chávez e Maduro. A mais, fortalece programa favorecedor do coletivismo e do intervencionismo. Da parte da cúpula da empreiteira, pelo que se percebe, indiferença total, suicida, com a agressão aos interesses do Brasil, do empresariado e do povo em geral. Passo ao agronegócio. Constato ali, temo que generalizada, a mesma indiferença suicida. Depoimento de Joesley Batista, dos maiores pecuaristas, se não o maior, do Brasil: “Ele [Lula] me ligou esses dias, pediu para mim [sic!] atender os sem-terra. Eu digo ‘ô presidente’(risos) ‘Joesley, eu tô aqui com o [João Pedro] Stédile não sei o que ele precisa falar com você’ ...’Tá bom, presidente, manda ele vir aqui. Eu atendo ele, tá bom’”. No meio do riso, a promessa tácita de financiamento do MST. E o MST iria utilizar o dinheiro, sabia-o Joesley, para agredir os fazendeiros e favorecer o comunismo no Brasil. O mais grave, não são dois exemplos isolados. São exemplos sintomáticos, são sem-número os casos parecidos na política, na religião, nos negócios, nas escolas. Tal insensibilidade morfética provavelmente constitui a pior ameaça ao nosso futuro de nação próspera, ocidental e cristã.

Falei da Venezuela. A boa notícia vem de lá. O Episcopado, por suas figuras mais expressivas, está reagindo energicamente contra a tirania chavista. E o fato, reatividade de organismo vivo, tem importância enorme para a Igreja e para a sociedade.

Cinco bispos, dos quais dois cardeais, solicitaram audiência ao Papa Francisco para expor a grave situação do país. A agenda já estava pronta. Greg Burke, o porta-voz do Vaticano garantiu, haveria “um rápido cumprimento”. Antes do encontro, já em Bogotá, um dos cinco, dom Jesús González, bispo auxiliar de Caracas, declarou publicamente, esperavam ser recebidos. Óbvio, não apenas para “cumprimento rápido”. Após a missa celebrada no Parque Simón Bolivar em Bogotá o Papa falou com eles. Melhor talvez, ouviu-os. A delegação era formada, como disse, por dois cardeais, dom Jorge Urosa, arcebispo de Caracas, dom Baltazar Porras, arcebispo de Mérida, dom José Luis Azuaje, bispo de Barinas, dom Mario Moronta, bispo de San Cristóbal, e dom Jesús González. A respeito do encontro, a Conferência Episcopal Venezuelana [presidente, dom Jorge Urosa; vice-presidente, dom José Luis Azuaje] emitiu comunicado forte e expressivo: “O Pontífice mostrou sua preocupação pela agudização da crise humanitária, manifestada na fome e na escassez de remédios, bem como pela emigração de numerosos venezuelanos. Também foi informado da imposição da Assembleia Nacional Constituinte e da perseguição que alguns dirigentes, ameaças a sacerdotes e religiosas e fechamento de meios de comunicação social”.

De outro lado, pouco antes, na 5ª feira, o arcebispo de Caracas havia denunciado ao diário El Tiempo, o principal de Bogotá: “É claro que existe uma ditadura na Venezuela, já que foi anulado o Parlamento. A seguir foi instituído um órgão absolutamente inconstitucional, torpe e fraudulento, a Assembleia Nacional Constituinte. É um sistema ditatorial em que não há divisão de poderes e não se respeitam os direitos fundamentais, ou seja, nem os estabelecidos na Constituição Nacional”.

No quadro de aberta oposição da Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) ao governo Maduro, um de seus órgãos, a Comissão Justiça e Paz em documento assinado por dom Roberto Lückert León, presidente (antigo arcebispo de Coro) afirma o seguinte: “A Comissão Justiça e Paz, considerando a situação, tanto dos presos políticos, como dos presos comuns, evidenciada nas denúncias de familiares e do Observatório Venezuelano de Prisões, nas quais se descrevem tratamento cruel e desumano nos traslados e nos próprios centros de reclusão, situações anti-higiênicas, alimentação precária, falta de remédios, falta de assistência jurídica, impedimentos para visitas de familiares e falta de assistência médica. Exigimos que cesse a caça às bruxas contra os cidadãos que não pensam como o regime; exigimos que a família do general Raul Isaias Baduel seja informada de seu paradeiro e estado de saúde. Esta comissão eclesial exige o fim da perseguição, da tortura física e psicológica que indica sanha e violência contra tais cidadãos. Exigimos justiça. Caracas, 10 de agosto. Dom Roberto Lückert León, presidente.

Outro órgão da CEV, a Rede Latino-americana e Caribenha de Migração assim se manifestou: “Queremos manifestar nossa solidariedade ao povo venezuelano que nesse momento vive uma crise humanitária, caracterizada pela escassez de alimentos e remédios, colapso dos serviços públicos, inflação mais alta do mundo, violência sem limites e graves violações dos direitos humanos. A Conferência Episcopal Venezuelana assinalou profeticamente: ‘Em nosso país se percebe de forma muito clara como a violência adquiriu caráter estrutural. São muitas suas expressões’. Esta situação que atenta contra a vida e a dignidade dos venezuelanos e venezuelanas, forçou milhares e milhares a deixar o país, em diáspora sem precedentes”.


Cada um ▬ sem nenhuma indiferença, que no caso teria uma nota suicida ▬, em seu âmbito, precisa ajudar a Venezuela enfraquecida a sair do abismo, no momento em que forças poderosas a empurram para mais fundo. Rússia, China, Nicarágua, Bolívia, assim como o PT e vários partidos de esquerda no Brasil trabalham a favor da clara opção preferencial pela tirania e pela fome na Venezuela. É gravíssimo. Um lembrete. Temos aqui ótima ocasião para que a CNBB, abandonando sua conduta de dócil companheira de viagem das causas da esquerda, apoie com força sua brava coirmã, a CEV. Exposta ao perigo, increpando exclusões, a CEV leva adiante cruzada em defesa do povo humilde e da nação perseguida. A mudança de rumos, tomara, será sintoma de que, por fim, a CNBB começou a ouvir os clamores do povo. O bom exemplo edificaria a todos os brasileiros.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Humilhação e esperança

Humilhação e esperança

Péricles Capanema

A viagem do presidente Michel Temer a Pequim deu origem a 14 acordos. Deixo de lado o memorando de cooperação relativo ao futebol e outros penduricalhos. Falo sobre financiamentos oficiais da China ao Brasil e compra de ativos de empresas brasileiras por estatais chinesas.

A propósito e de passagem, durante os dias em que Temer lá esteve, a estatal chinesa CMPort (China Merchant Port) comprou por R$2,9 bilhões 90% do TCP, terminal de cargas de Paranaguá. O terminal movimenta 10% dos contêineres no Brasil. A CMPort, agora dona, assim anunciou a nova propriedade em seu site: “A CMPort compra 90% do segundo maior porto do Brasil. A China Merchant Port Holdings Company Limited (CMPort) tem a satisfação de anunciar que comprará 90% do Porto de Paranaguá”. Ainda no site se pode ler: “O China Merchant Group é um conglomerado de propriedade estatal.” Administra ativos próximos a US$1 trilhão, teve lucro de aproximadamente U$8 bilhões no ultimo exercício. É estatal semelhante à Petrobrás no Brasil, com ações negociadas em Bolsa. Qualquer director só é nomeado com o acordo do governo e do Partido Comunista Chinês. De outro modo, longa manus do governo e do PC chineses. A garra se fincou no porto de Paranaguá.

Volto aos resultados da viagem do presidente Michel Temer selecionando trechos de ampla notícia do diário espanhol El Pais — são destaques meus os NB: “As autoridades chinesas respaldaram na sexta-feira o programa de privatizações realizado pelo presidente Michel Temer. O presidente chinês Xi Jinping insistiu no aumento dos intercâmbios econômicos entre as duas nações, e indicou novos investimentos de seu país ‘nos setores energético, agrícola e de infraestrutura’ do Brasil. São, justamente, parte das áreas que Temer quer abrir ao setor privado, acreditando que a China desempenhará um papel determinante. Os dois países assinaram 14 acordos bilaterais, dentre os quais se destacam a aprovação de uma nova linha de crédito de 300 milhões de dólares [NB: crédito estatal] ao Banco do Brasil e outro preparatório para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) receba uma linha de 3 bilhões de dólares [NB, outra vez, crédito estatal] uma confirmação de que a China tem se tornado o grande banqueiro do Brasil [NB: repito, dinheiro de bancos estatais chineses]. Na área da infraestrutura, a empresa chinesa State Grid [NB: estatal] assinou a licença para as obras da linha de alta tensão entre o Xingu e o Rio de Janeiro, enquanto a China Communication and Construction Company [NB: estatal] investirá 700 milhões de dólares na construção de um terminal de uso privado no porto de São Luís. A China National Nuclear Corporation [NB: estatal] assinou também um memorando de entendimento com a Eletrobras para continuar com a construção da usina nuclear de Angra III. Afirmou Zhang Run, subdiretor para a América Latina e o Caribe no Ministério das Relações Exteriores chinês: “O Governo continuará incentivando as empresas chinesas a participarem ativamente na cooperação econômica e comercial com os países da América Latina, incluindo o Brasil e a Venezuela”. Sobre o programa de privatizações disse a El País Li Yinsheng, executivo-chefe da China Three Gorges Brazil [NB: estatal], que opera duas das maiores hidrelétricas do país, em Ilha Solteira e em Jupiá”: “Temos interesse nesse plano”. Aviso de novo: em princípio, acho benéfica a presença de capital estrangeiro privado no Brasil, sou favorável a privatizações e concessões, mas não desse jeito. Está em jogo a soberania nacional; mais fundo, nosso futuro de nação cristã, com raízes ocidentais.

Este artigo, em parte, é costura de citações. O motivo, escrevi tantas vezes sobre o tema que me dispenso de repetir aqui o que lá atrás já denunciei. Uma constatação resume tudo: estatais chinesas, dirigidas pelo governo e pelo Partido Comunista Chinês (PCC), estão avançando com garganta de jacaré sobre a economia brasileira. E o maior parceiro comercial do Brasil é a China comunista. Como resultado, querendo ou não, aqui também é constatação, vamos sendo arrastados da condição de país formalmente independente e soberano para a de, na prática, protetorado chinês, no caso sujeitos a um poder despótico, ateu, coletivista e totalitário. Não adiante chiar, fechando olhos para fato óbvio. Daqui a quanto tempo? Não sei; é claro o rumo, porém.

Continuo voz isolada, mas aqui e ali começam a pipocar constatações parecidas. É um bico de gás de esperança. Um sintoma, vejam extratos do editorial do Estadão, 5 de setembro: “Futebol de um lado, dinheiro e tecnologia do outro, isso resume a maior parte dos atos assinados por brasileiros e chineses. Muitos bilhões de dólares em créditos e investimentos. Os chineses passarão a controlar ativos importantes na área da infraestrutura. Os atos assinados remetem a uma deprimente história de erros do lado brasileiro. O governo brasileiro converteu o País em fornecedor de matéria-prima para o mercado chinês, numa relação semicolonial”. Relação semicolonial. De um lado, a semicolônia; do outro, a semimetrópole.

A primeira luzinha de esperança é ter nitidez sobre a gravidade do quadro. Começo a perceber. Cegos não vão  a lugar algum Outro ponto, vem apagando entre nós difuso otimismo superficial, amigo do devaneio, enraizado em ufanismo nacionalisteiro.


Serei sintético, só tratarei de um ponto, o espaço acabou. Por causa de sofrimentos e dificuldades, afirmou Nelson Rodrigues “aprendi a ser o máximo possível de mim mesmo”. Grande programa, vale para pessoas, escolas, empresas, nações. O Brasil sairá da humilhação, se aprender a ser o máximo possível de si mesmo, entendendo logo, o mais importante é favorecer condições para buscar a plenitude em todos os âmbitos. Trabalhando para que, em clima de harmonia social, temperança e diferenças proporcionadas, haja estímulo às potencialidades de cada um. Quanto mais melhor. É programa para pais, religiosos, líderes políticos e empresariais. Seriedade na família, esforço na escola, liberdade, garantias à propriedade e livre iniciativa na economia. Ajudado por Deus, o Brasil aprenderá assim a ser o máximo póssível de si mesmo. 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O urutu hipnotizou o sabiá

O urutu hipnotizou o sabiá

Péricles Capanema

O sabiá-laranjeira, que já era ave-símbolo do Estado de São Paulo, foi declarado ave-símbolo do Brasil por decreto de 3 de outubro de 2002. Oficialmente se juntou aos quatro símbolos nacionais: bandeira, hino, brasão de armas, selo. Apropriadas as escolhas, brasileiríssimo o sabiá. Representa-nos, como a andorinha à Áustria e a cegonha à Alemanha. Passo para a cobra. O urutu, sertão afora, intimida mais que a cascavel. Alerta o matuto, o urutu, quando num mata, aleja. Os herpetólogos negam que serpente hipnotize passarinho. A ave, descuidada, aproxima-se por si do réptil imóvel, pronto para o bote. Aceito a ciência, mas vou ficar aqui com o capiau: o urutu hipnotiza o sabiá. Serve aos objetivos do artigo.

O governo acaba de lançar o mais amplo pacote de privatizações e concessões desde o governo FHC. Já aviso de saída, eu acho é pouco, sou favorável à mais abrangente privatização e à utilização crescente das concessões. Em princípio, quanto maior a presença de capital privado na economia, melhor. Entre privatizações e concessões, foram anunciados 806 quilômetros na Manaus-Porto Velho, 634 quilômetros na BR-153, 15 terminais portuários em Belém, Vila do Conde, Paranaguá e Vitória. Doze aeroportos serão entregues à iniciativa privada, entre os quais Congonhas, o mais movimentado do País. O governo pretende vender sua participação nos aeroportos de Guarulhos, Confins, Brasília e Galeão. Ainda 11 lotes de linhas de transmissão de energia, além de subestações, com obrigação de as empresas vencedoras ampliarem a distribuição, localizados na Bahia, Ceará, Pará, Paraná, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Tocantins.

De todas, a mais chamativa privatização é a da Eletrobrás. Haverá emissão de papeis sem subscrição da União que, com isso, perderá o controle. A estatal opera 12 hidrelétricas e duas termelétricas. Tem 61 mil quilômetros de linhas de transmissão. Paro por aqui.

Poderá ser o fim de um pesadelo. Como é notório, suas diretorias são leiloadas por políticos. Registrou prejuízos entre 2012 e 2015, deve R$40 bilhões. Segundo cálculos da 3G Radar, gestora de recursos financeiros, a União (você, contribuinte) ali perdeu cerca de R$186 bilhões nos últimos 15 anos com o rateio político e a má gestão. E a imprensa, volta e meia informa, depois do petrolão, virá o eletrolão. Sua venda poderia gerar R$20 bilhões para os cofres públicos.

Aqui se esgueira o urutu. Em 24 de agosto a Odebrecht Latinvest anunciou a venda da hidrelétrica de Chaglla, a terceira maior do Peru, para um consórcio liderado pela China Three Gorges Corporation (CTG), estatal chinesa, por aproximadamente 1,4 bilhão de dólares. Às vezes faz falta lembrar o óbvio, a CTG é inteiramente dirigida pelo governo e pelo Partido Comunista Chinês (PCC).

Um dia depois, 25 de agosto, o Estadão noticiou, na China o presidente Michel Temer vai oferecer o pacote de privatizações e concessões a empresários chineses. Entre os ativos, as quatro usinas da CEMIG: Miranda, São Simão, Volta Grande e Jaguara. O pacote ofertado aos chineses destacará projetos de energia, aqui a Eletrobrás, terminais portuários, transportes, rodovias, hidrovias, ferrovias. Segundo Tarcísio Freitas, secretário de coordenação de projetos da PPI (Programa de Parcerias de Investimentos), membro da comitiva presidencial, para 1º de setembro está agendada reunião do Presidente com o SPIC (State Power Investment Overseas) para propor os negócios. O SPIC, grupo empresarial chinês, 140 mil funcionários, ativos de 126 bilhões de dólares, é estatal. De outro modo, repito, dirigida pelo governo e pelo Partido Comunista Chinês. Constitui exemplo revelador de pelo menos um tipo de “empresários chineses” (membros do PCC) para os quais será apresentado o pacote de negócios.

A privatização tupiniquim tem apresentado isso de extraordinário: entrega maciça de estatais brasileiras para estatais chinesas. Com um agravante: quem mandava nelas eram os partidos da base aliada. Foram foco de roubalheira debandada e incompetência demolidora. Quem vai mandar em parte de tais empresas a partir de agora, ou daqui a pouco, será o Partido Comunista Chinês. E passarão a ser instrumentos (descarado, oculto, disfarçado, irá da hora) da política do Partido Comunista Chinês. João Carlos Mello, presidente da Thymos, consultoria do setor elétrico, observou: “Os chineses não gostam de nada pulverizado”. Exemplificou, no segundo semestre de 2016, a State Grid, estatal chinesa, comprou da Camargo Corrêa, os 23% que esta empresa detinha na CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz). Nos meses seguintes, os chineses foram adquirindo participações minoritárias. A partir de janeiro de 2017, a State Grid se tornou controladora da CPFL (54,6%). De passagem, a CPFL atende 679 municípios e tem 9,1 milhões de clientes nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais.

Não custa lembrar, de momento, a China e a Rússia, voltando as costas para a fome, prisões e assassinatos do povo, estão apoiando a tirania chavista na Venezuela. Aqui no Brasil, o PT também apoia o ditador Maduro. Sintonias.

A que política servirão as estatais chinesas no Brasil? Em quadro mais amplo, na África e América Latina, a China está fincando estacas de seu poder que, oportunamente, será usado contra a influência dos Estados Unidos. Que papel terá o Brasil na implantação desses objetivos do PCC? Já aviso, se o setor elétrico brasileiro e outras áreas forem entregues ao PCC, o PT vai deixar de falar contra a privatização. O partido tem favorecido interesses de seus aliados, os comunistas chineses.

Por que ninguém comenta o óbvio ululante? Parte da resposta também é óbvia. A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Grosso modo, tem conosco as relações econômicas clássicas de metrópole e colônia. Recebe matéria-prima, vende produtos industrializados. Se agirmos contra seus interesses, poderá rapidamente comprar nossos produtos de outros fornecedores. E aí teremos queda de exportações, diminuição do PIB, quebra de empresas, demissões. Ninguém gosta de confessar, mas o silêncio é sintoma de protetorado seminal, construído por anos e anos de distanciamento consciente dos mercados norte-americano e europeu. Ia utilizar distanciamento criminoso, ainda acho que talvez fosse mais apropriado. As instituições nacionais, órgãos do Estado, por patriotismo, até mesmo por dever constitucional têm o olhar posto nos perigos à soberania e à independência do Brasil. Decepcionariam fundo os melhores brasileiros se soubessem não estarem alertas a respeito que deles têm o direito de esperar, pelos canais adequados, palavras orientadoras.


De norte a sul são alardeadas enormes possibilidades de negócios com a China, ao tempo do silêncio sobre os perigos. Motivo? O parágrafo acima não traz tudo. Têm ainda seu peso a insciência, a superficialidade de espírito, o otimismo doentio. Faltaria algo? Meu medo, o urutu hipnotizou o sabiá.

sábado, 26 de agosto de 2017

A coragem das definições

A coragem das definições

Péricles Capanema

Com enorme proveito acabei de ler Return to order de John Horvat II, livro enriquecedor para quem pretenda sem clichês conhecer os Estados Unidos e vislumbrar as encruzilhadas. Convém lembrar, seu rumo nas bifurcações repercutirá rapidamente na vida nossa.

Encantaram-me a nitidez das percepções e a coragem das definições, coisa hoje rara. Reverenciamos a bravura do soldado, a valentia do pai de família e tantas outras. Existe também a fortaleza do intelectual, dela se trata aqui — o amor à objetividade o obriga por vezes a gravar no papel, conscientemente, palavras que destruirão o êxito profissional e até a nomeada social. Acontece então, a escravidão à verdade o atira sem volta no ostracismo. O pior dos erros é acertar sozinho contra muita gente, constatava amargo e risonho Agripino Grieco.

Volto ao livro. Em visão de conjunto, com base segura em pensadores como Aristóteles e santo Tomás de Aquino, assim como em papas como Leão XIII e Pio XII, Horvart interliga moral, economia, cultura, civilização. Desbravador arrojado, chegou ao topo do morro, de lá descreveu panoramas novos. Traz explicitações com força difusora, chegará o dia em que tais idéias, de momento ainda largamente desconhecidas, granjearão amplo assentimento.

Por isso, Horvat correu riscos — o primeiro, a incompreensão; o segundo, o isolamento. Contudo, quis assim, tornou-se credor de justa admiração. Com efeito, não existe ali apenas agudeza de análise, assoma nítido o desassombro, em especial quando demole barreiras fincadas pelas batidas tiranias das modas do pensamento.

Entre sem-número deles, respigo dois exemplos de importância decisiva para os Estados Unidos, a pátria da liberdade e, decorrência, das mais amplas possibilidades de escolha. Largada: a que conceito de liberdade aderir? Abraçar qual noção de escolha? Daqui nascem diferentes, por vezes contrários, estilos de vida, hábitos, culturas, até civilizações. O autor pôs pingos em vários iis: “Muitos confundem liberdade com escolha. Não se dão conta que liberdade é a faculdade de escolher os meios para determinado fim, percebido como bom e em acordo com nossa natureza. Não é a própria escolha. Quando alguém faz uma má escolha ou escolhe um fim ruim, o resultado não é liberdade, mas uma forma de escravidão às paixões. Dessa forma a pessoa que come demais, quando satisfaz a fome natural, ou quando escolhe um vinho excelente, procurando se embebedar, não exercita a verdadeira liberdade, mas abusa dela. Quanto mais dominamos nossa natureza, mais livres somos. A virtude sobrenatural nos confere maior liberdade, pois não apenas dominamos nossa natureza, mas a ultrapassamos”.

A seguir lembra texto de santo Tomás de Aquino a respeito, comentado por Leão XIII na encíclica Libertas Praestantissimum. Ensino do Papa: “Da sua doutrina [de santo Tomás de Aquino] resulta que a faculdade de pecar não é uma liberdade, mas uma escravidão”. O Papa recorre ao Doutor Angélico: “Todo ser é o que lhe convém segundo a natureza. Logo, quando se move por um agente exterior, não age por si mesmo, mas pelo impulso de outrem, o que é próprio de escravo. Ora, segundo a natureza, o homem é racional. Por isso quando se move segundo a razão, é por movimento próprio que ele se move, e opera por si mesmo, o que é essência da liberdade; mas, quando peca, procede contra a razão, e então é como se fosse posto em movimento por outro e sujeito a dominação estranha”.

O segundo exemplo tem importância semelhante, se não maior. John Horvat não busca na economia nem na sociologia as razões dos problemas maiores que atormentam o País. Esburaca mais fundo, coloca a intemperança como grande fator da crise nos Estados Unidos, não importa o âmbito. Vai além, qualifica-a: intemperança frenética, a intemperança em estado de frenesi.

Uma das definições da intemperança frenética: “É um impulso inquieto, explosivo e implacável no interior do homem que se manifesta na economia moderna 1) pela destruição de limites legítimos; 2) pela satisfação de paixões ilegítimas. Anima impulso econômico subjacente cujo efeito pode ser comparado ao de um acelerador ou regulador estragado que desnatura uma máquina de bom funcionamento, desequilibrando-a”. E põe a nu muitos de seus efeitos na economia. Faz o mesmo em outros âmbitos, academia, cultura, política, o que confere grande unidade ao trabalho. Presencia o leitor uma abordagem inovadora em quase 400 páginas de brilhante análise iluminada ao mesmo tempo pela religião, psicologia, moral, história, a perder de vista mais esclarecedora que os exames compartimentados habituais.

John Horvat enraíza a intemperança frenética na explosão do orgulho e sensualidade, que deu origem às revoluções nos Tempos Modernos, como está na obra Revolução e Contra-Revolução de Plinio Corrêa de Oliveira. Pondera o autor: “Para entender esse impulso subjacente, devemos ter em mente sua natureza frenética. Não estamos falando da mera temperança que leva para a simples ganância ou ambição. Sempre prejudicaram o homem. Também não confundimos intemperança frenética com a legítima e enérgica atividade de negócios e sua aceitação do risco que gera prosperidade. Intemperança frenética é uma expansão explosiva dos desejos humanos além dos limites tradicionais e morais”. No trabalho, tal conceito é aplicado aos mais variados âmbitos da vida humana, o que lhe traz grande unidade.


Por imposição lógica, a solução para a crise atual reside, em raiz, na prática da temperança, vista em conjunção com as outras virtudes cardeais, prudência, justiça, fortaleza. Fazia falta lembrar tais verdades, em especial quando trabalhadas por autor que sabe ver e refletir.

domingo, 20 de agosto de 2017

Imposição totalitária

Imposição totalitária

Péricles Capanema

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo instalou sanitários unissex em seu campus da rua Monte Alegre e logo procurou justificar-se: “A PUC-SP, atenta à diversidade de sua comunidade universitária, composta por alunos, professores e funcionários, buscou contemplar a todos com a implantação do banheiro unissex. A Instituição ressalta que estes sanitários são de uso comum, não direcionados a públicos específicos”. A diversidade, formada por alunos, professores e funcionários, nunca levaria aos banheiros unissex. Diversidade aqui evoca outras realidades que a PUC, pisando em ovos, preferiu não nomear explicitamente.

Trato a seguir de tema por muitos pressentido, mas por ninguém ainda levantado, pelo que me consta. É medida precursora. Com o tempo, outras instituições católicas promoverão iniciativas semelhantes que consolidarão a mesma direção demolidora. E a própria PUC-SP, assimilado o choque do passo pioneiro, provavelmente também radicalizará na direção agora anunciada, passando por cima de mal-estares e oposições, em especial de professoras e alunas. Assistimos a ensaios de implantação de um programa de evidente caráter discriminador e excludente de setores conservadores que estraçalha o mais interior da personalidade, porá em tela de juízo até o direito de o homem ser homem e de a mulher ser mulher.

De outro modo, se reações enérgicas não surgirem vitoriosas, teremos em instituições católicas, hoje já amplamente infeccionadas por doutrinas negadoras até da existência da natureza humana, medidas favorecedoras do homossexualismo, transsexualismo e ideologia de gênero. Agride-nos programa revolucionário radical (vai até as raízes da pessoa humana), a ser levado a cabo, é o que de momento parece, sobretudo de forma girondina.

A decisão chocante traumatizou, prima facie, por vir de instituição católica. Há evidente desnaturamento — poderia utilizar traição no lugar de desnaturamento — dos intuitos que deram origem à PUC – SP, ideais, na origem, santos. As PUCs tiveram no Brasil como grandes inspiradores dom Sebastião Leme e o padre Leonel Franca. Seu objetivo, recristianizar, se quisermos, recatolicizar em especial as elites brasileiras, até então presas do indiferentismo, do agnosticismo e do anti-clericalismo. O Brasil das décadas 10, 20 e 30 era constituído por uma ampla maioria católica, apática e sufocada, dirigida por minorias descrentes. A PUC em São Paulo foi ainda vista como contraponto à fundação da USP, de clara inspiração racionalista.

Mais remotamente, a implantação das PUCs refletia ideal de restauração, reconquistar para a Igreja as camadas intelectuais e, com elas, caminhar rumo à ordem temporal cristã. Tais anseios no Brasil ecoavam movimentos europeus, cujo coração palpitava na Santa Sé. Sob o ponto de vista da história pátria, convém ainda ter em vista, vivíamos a época dos grandes projetos de reconstrução nacional; o católico era um deles.

Lembro pontos da ideologia de gênero, que está na base da referida investida revolucionária, da qual a PUC-SP se transforma, no mínimo, em companheira de viagem. Digo no mínimo, pois muitas dessas doutrinas ganham ali de forma crescente adeptos entre professores e alunos. De companheiros de viagem passam a promotores. Foi assim e continua sendo na esquerda católica de matiz político e social, repete-se a realidade macabra nas correntes revolucionárias que buscam mudar o interior do próprio homem, negando-lhe natureza, inclinações, funções complementares aos dois sexos.

Segundo afirma a referida ideologia, o gênero é construção meramente social e cultural, não tem base natural, de outro jeito, independe do sexo biológico. Nasceu fêmea, pode escolher o gênero masculino. Nasceu macho, pode escolher o feminino. Ao longo da vida, modifica escolhas, se quiser, pois gênero e sexualidade são mutáveis. Shulamith Firestone, das mais conhecidas promotoras do movimento, afirma: “O gênero é uma construção cultural. Homem e masculino poderiam significar tanto um corpo feminino como um masculino; mulher e feminino tanto um corpo masculino como um feminino. A meta definitiva da revolução feminista é acabar com a própria diferença de sexos”. Chamei a atenção para um movimento em marcha, que já agora coloca em sua farândola depravada instituições católicas. O curso da lógica reclama a constatação inevitável, suas imposições totalitárias lembram a eugenia nazista e a criação do homem novo da mitologia comunista.


Para finalizar, o magistério de Bento XVI a respeito, discurso de 21 de dezembro de 2012 à Cúria Romana, servirá de bálsamo: “Na questão da família, não está em jogo meramente uma determinada forma social, mas o próprio homem: está em questão o que é o homem e o que é preciso fazer para ser justamente homem. [...] Se antes tínhamos visto como causa da crise da família um mal-entendido acerca da essência da liberdade humana, agora se torna claro [...] está em jogo a visão do próprio ser, do que significa realmente ser homem. [...] Hoje, sob o vocábulo ‘gender – gênero’, é apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente [...] Salta aos olhos a profunda falsidade desta teoria e da revolução antropológica que lhe está subjacente. O homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade [...]. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um fato pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada. Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: ‘Ele os criou homem e mulher’ (Gn 1, 27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem. O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e vontade. A manipulação da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo. Agora existe apenas o homem em abstrato, que em seguida escolhe para si, autonomamente, qualquer coisa como sua natureza. Homem e mulher são contestados como exigência, ditada pela criação, de haver formas da pessoa humana que se completam mutuamente. Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação. Mas, em tal caso, também a prole perdeu o lugar que até agora lhe competia, e a dignidade particular que lhe é própria. [...] Chega-se necessariamente a negar o próprio Criador”. E nós chegamos necessariamente à conclusão que, inexistindo reações enérgicas, instituições católicas se preparam para esbofetear o ensinamento pontifício.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Não lavo as mãos na bacia de Pilatos


Péricles Capanema

Em 16 de julho, na reunião de abertura do 23º Encontro do Foro de São Paulo (organização fundada por Fidel Castro e Lula para coordenar ações de partidos esquerdistas da América Latina), realizada em Managua, capital da Nicarágua, a senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, entre outras abominações, das quais algumas abaixo, apoiou enfaticamente a farsa da Constituinte venezuelana: “O PT manifesta seu apoio e solidariedade ao governo do PSUV, seus aliados e ao presidente Nicolás Maduro. Temos a expectativa de que a Assembleia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana”. Foi adiante na mesma direção: “Aproveitamos para manifestar nosso irrestrito apoio e solidariedade aos companheiros do Partido Comunista Cubano. Este ano comemoramos o centenário da Revolução Russa de 1917 e também o cinquentenário da queda em combate do guerrilheiro heroico o comandante Ernesto Che Guevara”. De novo o PT manifesta, em autenticidade reveladora, seus pendores tirânicos na imposição do programa socialista, orgulhoso de se colocar na esteira do comunismo russo e do comunismo cubano.

Em 30 de julho, o Conselho Eleitoral da Venezuela (CNE) anunciou que 41,53% dos eleitores elegeram a nova Assembleia Nacional Constituinte. Teriam comparecidos 8.089.320 eleitores, 41,53% do total. A oposição afirma, houve fraude escandalosa. O comparecimento terá sido de 12,4% do eleitorado. Leopoldo López e Antonio Ledezma, líderes da oposição, voltaram a ser presos, provocando grandes reações internas e internacionais O governo venezuelano, indiferente, com a medida deixava claro a intenção de radicalizar no caminho encetado.

A Conferência Episcopal Venezuelana, em sua conta do Twitter, imediatamente postou pungente súplica a Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela: “Virgem Santíssima, Nossa Senhora de Coromoto, padroeira celestial da Venezuela, livrai a nossa pátria das garras do comunismo e do socialismo”. Poucos dias antes, Dom Jorge Uroza, cardeal-arcebispo de Caracas, advertiu, “o país está em ruínas e as pessoas estão morrendo de fome”. Alertou ainda o Purpurado: “Falta comida, remédios, temos a inflação mais alta do mundo, o povo rechaça o governo”.

No Exterior, a Rússia tomou clara posição a favor de Nicolás Maduro: “Esperamos que aqueles membros da comunidade internacional que querem rejeitar os resultados das eleições venezuelanas e aumentar a pressão econômica sobre Caracas mostrem contenção e renunciem a estes planos destrutivos”, advertiu comunicado do Ministério do Exterior da Rússia. Cuba, Equador, Nicarágua na mesma direção de respaldo vergonhoso.

No Brasil, PT, PC do B, PSOL e PCB aprovam a tirania bolivariana. José Dirceu foi cinicamente claro: “O massivo comparecimento à eleição da Assembleia Nacional Constituinte, convocada pelo presidente Nicolás Maduro, abre um caminho institucional e democrático para resolver a crise venezuelana”. Ainda no Brasil, o PDT e Rede evitam se posicionar por razões facilmente conjeturáveis; deixar público o que sente o coração pode escandalizar e tirar votos. Por seu lado, até agora, a CNBB, histórica companheira de viagem do PT, também não se posicionou. Entristece a no mínimo lerdeza da CNBB em seguir o bom exemplo de sua irmã, a Conferência Episcopal Venezuelana. Tomara não caminhe, como é o deprimente hábito, nos passos do PT acolitando uma ditadura assassina, que esfomeia o povo, segundo palavras do cardeal-arcebispo de Caracas.

O governo brasileiro age bem, não reconhece a legitimidade da Constituinte. Diz nota do Itamaraty de 1º de agosto: “O governo brasileiro repudia a recondução ao regime fechado de Leopoldo López e Antonio Ledezma, ocorrida um dia após a votação para a escolha de uma assembleia constituinte em franca violação da ordem constitucional venezuelana. O Brasil solidariza-se com o sofrimento dos familiares de Antonio Ledezma e Leopoldo López, em particular suas mulheres, Mitzi Capriles e Lilian Tintori. A prisão de dois dos mais importantes opositores ao governo do presidente Nicolás Maduro é mais uma demonstração da falta de respeito às liberdades individuais e ao devido processo legal, pilares essenciais do regime democrático. O Brasil insta o governo venezuelano a libertar imediatamente López e Ledezma”.

O Brasil agirá em sintonia com vários países da América Latina na condenação às atitudes tirânicas do governo venezuelano. Ótimo. Na mesma direção, agirá a Comunidade Europeia. De maior importância, os Estados Unidos têm linguagem e ação mais contundente. O presidente Donald Trump declarou pouco dias antes da votação para a Constituinte: “Ontem, o povo venezuelano mais uma vez deixou claro que apoia a democracia, liberdade e a lei. Ainda assim suas ações fortes e corajosas continuam sendo ignoradas por um líder ruim que sonha em se tornar um ditador. Os Estados Unidos não ficarão parados enquanto a Venezuela desmorona. Se o regime de Maduro impuser sua Assembleia Constituinte em 30 de julho, os EUA irão tomar ações econômicas fortes e rápidas". Já foram decretadas sanções duras. Outras virão. Condenações e sanções de países de regime democrático e de organizações internacionais de relevo estão prometidas, certamente acontecerão com efeitos benéficos.

Visto isso, o que faz aqui o título do artigo? Tudo, embora à primeira vista possa parecer o contrário. As por ora medidas tomadas pelos grandes do mundo em defesa do pequenino aos olhos dos potentados, esfomeado e tiranizado povo venezuelano são insuficientes. Gritantemente insuficientes.

Pilatos diante da turba enfurecida, reconheceu a inocência de Nosso Senhor, aliás solar. É juízo de um espírito que via com retidão e justeza. Representava ali o maior poder da Terra, falava em nome da justiça e nada fez de eficaz para defender o Justo, a seus olhos pobre um desvalido galileu. Omitiu-se, passou à História como exemplo repugnante de oportunista covarde. Ninguém levou a sério o “a vós pertence toda a responsabilidade”. Pertencia a ele. “Pilatos, vendo que nada aproveitava, mas que cada vez era maior o tumulto, tomando água, lavou as mãos diante do povo, dizendo: Eu sou inocente do sangue deste justo; a vós pertence toda a responsabilidade” (Mt, 27, 24-25).


Se os grandes da Terra lavarem as mãos na bacia de Pilatos, o homem que reconheceu a inocência de Cristo, o injustiçado povo venezuelano, como Cristo, objeto da compaixão inerte de tantos, subirá o Calvário e à vista de todos será crucificado no Gólgota pelos modernos carrascos da legítima esperança popular. Minha súplica aqui é, cada um dos grandes que agora falam, possa também proclamar com verdade: “não lavo as mãos na bacia de Pilatos”. Para isso, reverente repito a oração postada no site da Conferência Episcopal Venezuelana: ““Virgem Santíssima, Nossa Senhora de Coromoto, padroeira celestial da Venezuela, livrai a nossa pátria das garras do comunismo e do socialismo”.