segunda-feira, 23 de abril de 2018

Desvio de rota na campanha presidencial


Desvio de rota na campanha presidencial

Péricles Capanema

Para os poucos que desconhecem o significado da palavra; mantra, originário do hinduísmo, também utilizado no budismo, é som ritual pronunciado de forma repetida, que busca quase sempre criar um estado de paz interior (alguns sugerem, narcotizante) em quem o cantarola ou escuta. É uma forma de encantamento. Existem mantras para facilitar a concentração e a meditação, para energizar, para dormir ou despertar. Tem gente que repete o som, pasmem, para vibrar canais energéticos, com o fito de desobstrui-los, sabe lá Deus o que isso possa designar. A mais, noutro aspecto, sua repetição traria bons relacionamentos, saúde, prosperidade, dinheiro. Por aí afora.

Está lotada de mantras, saindo pelo ladrão, a campanha presidencial no Brasil que já anda solta, apesar de oficialmente nem ter começado. Programas, até agora, quase nada. É perigoso o quadro, abaixo tratarei da kakistocracia.

Atrás dos votos, venham de ondem vierem, os candidatos fogem dos temas espinhosos, que podem tirá-los. Privatização é um deles. Aborto, outro. União homossexual, mais um. Austeridade fiscal e reforma da Previdência, na lista. A favor ou contra a possibilidade da prisão em 2ª instância, depois de sentença de colegiado, antes do trânsito em julgado? Que amplitude dar ao foro especial por prerrogativa de função? No máximo, generalidades sobre tudo isso. Corrupção, era natural, virou mantra, mas se evita dizer que a presença fortíssima das estatais na economia é caldo de cultura dela. Escutam-se aqui e ali censuras à presença crescente das estatais chinesas na economia brasileira. A campanha começa com generalidades desnorteantes, pode bem acabar com troca de ofensas pessoais do mais baixo nível.

Agora, alguns mantras. Avanço (vago, todos querem avanços, ▬ versão adjetivada, avanços sociais ▬, justificativa frequente para gastos irresponsáveis e concessão de direitos ilusórios que pouco ou nada ajudarão de fato o povo; em geral o prejudicam no longo prazo); medidas progressistas (expressão utilizada amiúde para atitudes na ordem política que flertam com ditaduras sanguinárias de esquerda; na ordem moral via de regra medidas que favorecem a desintegração moral, como facilidades maiores para a união homossexual). Mais um, preservação de setores estratégicos (empregado para deixar a estatização mais ou menos como está, continuando sob o domínio das patotas partidárias gigantescos setores da economia e da máquina estatal). Aliás, bobagem essa história de setores estratégicos na economia. Nos Estados Unidos o petróleo, a energia elétrica, a mineração, o subsolo estão desde sempre em poder dos particulares. Prejudicou a segurança do País? Impediu a economia de crescer e distribuir seus benefícios para a população? Ajudou e muito, essa é a verdade. Ênfase reformista no governo (aqui ninguém sabe o que esse mantra quer dizer de fato).

Em linhas gerais, nessa largada todos os candidatos são democráticos, populares, progressistas, reformistas. Como efeito a ser tido em conta, seduz, ilude e entorpece a repetição meio atoleimada de tais slogans. No meu caso aconteceu o contrário, impliquei. Cansei da cantilena, enfarei da lorota, enjoei dos mantras.

Poderia esmiuçar cada um deles. Estaco em um, o regime democrático. Ou, em outra formulação, a democracia. Diante de seu altar todos se inclinam, reverentes e sôfregos lhe prestam homenagens subservientes, como pagãos incultos e crédulos arqueados diante do Júpiter tronante.

Aqui, vou devagar, piso em terreno cheio de pregos e vidros, ando em área politicamente incorreta, mas estou disposto a pingar is pelo trajeto, atendendo ao fundamental para quem fala ou escreve: a clareza.

Simplificando, com alguma base se atribuiu a Aristóteles a classificação dos regimes em monárquicos, aristocráticos, democráticos e mistos, todos legítimos, com condições de buscar o bem comum. Luís Taparelli d’Azeglio (1793-1862), tratadista do Direito Natural, vê apenas diferenças acidentais, de quantidade, entre os regimes aristocráticos e democráticos, já que nos últimos, de fato, nunca a totalidade dos membros da sociedade participa dos assuntos públicos. A democracia corrompida degenera em demagogia, a aristocracia em oligarquia, a monarquia em tirania. Lembrei teoria de forma sumária para fixar os pontos principais da questão.

Agora, um mergulho na prática. Nossa democracia tem pouco a ver com o governo de todos da teoria aristotélica. Na casca, nomes iguais ou parecidos. No miolo, diferenças abissais. Nossa democracia tem caráter oligárquico e demagógico.  É partidocracia. Minorias organizadas tangem maiorias desnorteadas, manipulando o que por aí chamam de vontade popular. Focalizando de momento só um aspecto do quadro, vivemos na era dos robots nas redes sociais, das fake news, dos spin doctors, afundados no ambiente da pós-verdade. Tal montoeira de recursos propicia a kakistocracia, palavra nova que significa o governo dos piores. E se generaliza no povo a descrença e o repúdio. Aqui está um motivo pelo qual nenhuma proposta de voto facultativo avança no Congresso. O voto não obrigatório, sem o cabresto da sanção, poria a nu a inautenticidade de nossa democracia. Desconfiada, desinteressada ou raivosa, a maioria não iria até as urnas, o comparecimento, quanto muito, bateria nos 30%.

E nem trato dos regimes de partido único, feição totalitária, buscando a hegemonia, que é para onde caminha a Venezuela, nos passos de Cuba, aplaudidas delirantemente pelo PT e alguns partidos afins.

É, estamos vendo, nossa democracia tem muita telha de vidro no telhado. Outras. Já no nascedouro, foi fruto de golpe militar que incinerou a ordem constitucional. Em texto conhecido, afirmou Aristides Lobo, ministro do primeiro governo da República: “O povo assistiu àquilo bestificado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”. Mais grave nem foi o alheamento popular. Desde o começo plantou as raízes doutrinárias na Revolução Francesa, fede a racionalismo e iluminismo; e pisa, por lógica incoercível, o chão ensanguentado do Terror.

Democracia e república não são sinônimos entre si, nem são sinônimos de liberdade. Nunca foram. Na defesa das liberdades naturais, hoje agredidas por tudo quanto é canto, mora a questão mais séria. Para um católico seguidor da doutrina social da Igreja, repito, o primordial são as liberdades naturais: liberdade de cultuar o verdadeiro Deus, liberdade de buscar a própria perfeição, liberdade de comprar e vender, de empreender, de casar, ter filhos, educá-los. Enfim, ampla autonomia na vida pessoal, papel suplementar cabe ao Estado.

Nosso regime democrático asfixia várias das liberdades naturais, quando o direito seria bafejá-las, oxigená-las. Alguns poucos exemplos. Os candidatos prometerão expandir a liberdade de empreender, tão sufocada no Brasil? Constarão de seu programa compromissos de proteção à ordem que constituirão obstáculos sérios a quem delas abusa? Lembro os quebra-quebras do MST e do MTST. Prometerão proteger o direito de os pais educarem os filhos, criando condições que propiciem a luta contra a ideologia de gênero? É liberdade ameaçada pela tirânica coorte dos que pretendem impor na educação e na vida em geral tal doutrina devastadora. Parece, crescerá sem cessar ao longo dos anos a pressão pela vitória da ideologia de gênero, em especial por trabalho dos grandes meios de divulgação e da academia.

Tanta coisa mais haveria a dizer, mas preciso parar por aqui. Constato com tristeza, porém estou certo de que assuntos assim ▬ fundamentais para nosso destino de nação cristã e civilizada ▬, caso presentes nos debates, estarão de forma tangencial. A demagogia vai correr solta; se vier enxurrada, com facilidade poderemos despencar na kakistocracia.

domingo, 15 de abril de 2018

Jaburu ou sabiá?


Jaburu ou sabiá?

Péricles Capanema

O sabiá-laranjeira, ave-símbolo de São Paulo, por decreto de 3 de outubro de 2002 foi declarado ave-símbolo do Brasil. Satisfaz-nos a representação, está presente em todos os lugares, é vivaz, enérgica, alerta, simpática. Para João Capistrano de Abreu (1853-1927), em carta a João Lúcio d’Azevedo, quem bem representava o brasileiro era outra ave, o jaburu: “O jaburu, a ave que para mim simboliza a nossa terra. Tem estatura avantajada, pernas grossas, asas fornidas e passa os dias com uma perna cruzada na outra, triste, triste, d'aquela ‘austera e vil tristeza’”. Aqui, o historiador faz alusão à crítica de Camões à pátria, “metida no gosto da cobiça e na rudeza duma austera, apagada e vil tristeza”. Para o severo cearense, o brasileiro era um povo triste, parecia o jaburu.

A respeito, a conventional wisdom é esmagadora. Somos tidos por alegres, extrovertidos, gozadores da vida, até patuscos. No Nordeste, mais, no Sul, menos. Carnaval no Rio, Carnaval na Bahia, frevo no Recife, esticados, festanças e pândegas de rua em tantos outros lugares. Quase virou marca do País lá fora: Brasil, carnaval, futebol. E ele sai com essa de povo triste?

Capistrano de Abreu não está só. Vou pisar o estradão do politicamente incorreto, avançar veloz na contramão e pelo caminho esbarrar em ídolos cultuados na superficialidade.

Coloco ao lado do historiador outro homem de pensamento, desempoeirando livro de Paulo Prado “Retrato do Brasil – ensaio sobre a tristeza brasileira”, publicado em 1928, reeditado continuamente, mas pouco comentado. À vera, muitos o leem, com facilidade percebem a seriedade esclarecedora do texto, mas quase ninguém sente ambiente para sobre ele discorrer. Não dá ibope.

Paulo Prado (1869-1943) foi e representou um tipo humano que começou a ter destaque na vida brasileira ´pela amplitude e finura de apreciação. Teria sido vantajoso pessoas assim se firmarem na arena púbica e assim influir mais, mas vêm perdendo importância e desaparecendo para desgraça nossa. Com muita simplificação, o velho paulista foi intelectual e homem de ação. Esmiuçando, pensador, comerciante, fazendeiro, aristocrata, homem que sabia viajar. Como muitos de seu tempo de forte nacionalismo, refletiu sobre quais seriam as características autênticas do Brasil, suas lacunas e possibilidades, e como poderia, desabrochando potencialidades, fulgurar no futuro.

Por que lamentei o desaparecimento de tal tipo humano? Por que sua falta empobrece e deforma a vida pública do Brasil e até a formação do povo. São padrões humanos educativos, quando nada pela vista e exemplo, em certo sentido “role models”, agora virtualmente eliminados do horizonte das novas gerações.

Esse tipo de homem de pensamento vivia imerso em muitos ambientes e a reflexão em seus espíritos borbotava embebida de premissas pujantes, às vezes com uma agradável nota de verdor caseiro ▬ conversa brilhante em ambiente informal ▬, inexistente até mesmo em grandes pensadores. Trabalhavam material de primeira, filtrado por olhos que tinham aprendido a ver. Assim, não pulava diante de nós o raciocínio simplificador, ossos e esgares à vista, ao qual infelizmente vamos nos acostumando. Vinha educado, bem expresso, matizado, sentia-se ali riqueza na conjugação de várias realidades. Brotava de camadas mais fundas, fluía mais límpido.

Vamos a Paulo Prado: “Numa terra radiosa vive um povo triste. Legaram-lhe essa melancolia os descobridores que a revelaram ao mundo e a povoaram. O esplêndido dinamismo dessa gente obedecia a dois grandes impulsos que dominam toda a psicologia da descoberta e nunca foram geradores de alegria: a ambição do ouro e a sensualidade livre e infrene que, como culto, a Renascença fizera ressuscitar”.

Garante exatamente o contrário a sabedoria convencional entre nós: a luxúria é fonte de alegria, a bem dizer condição indispensável e insubstituível para manter o ambiente alegre. Paulo Prado, com coragem intelectual, abrindo caminhos, avança no rumo contrário, a luxúria infrene está na raiz da tristeza do brasileiro. Para ser alegre de fato, precisaria correr para o rumo oposto, cultivar a pureza.

Co segurança, vai adiante o intelectual paulista, menos difícil em homens de sua posição, no topo da inteligência, da vida social e, em algum sentido, dos negócios: “A volta do paganismo, se teve um efeito desastroso para a evolução artística da humanidade, que viu estancada a fonte viva da imaginação criadora da Idade Média, [...] teve como melhor resultado o alargamento das ambições humanas de poderio, de saber e de gozo”. Lembra Nietzsche e sua idealização do super-homem, oposto à mansidão de Nosso Senhor: “Era preciso alterar o sinal negativo que o cristianismo inscrevera diante do que exprimia fortaleza e audácia. Guerra aos fracos, guerra aos pobres, guerra aos doentes”.

Continua: “A era dos descobrimentos exaltava a vida física, como mais tarde a Revolução Francesa foi a exaltação da vida intelectual, arrogante e independente”.

Outro ponto que não mudou desde os Descobrimentos e até hoje gera tristeza, a cobiça, a busca desbragada da riqueza. A alegria está na temperança, na despretensão, na conformidade sensata com os bens que a vida nos oferece.

Enquanto perdurar tal situação, Paulo Prado tem razão, será mentirosa a fama de alegre do brasileiro, estaremos mais para jaburu que para sabiá.

quinta-feira, 29 de março de 2018

A Equipe


A Equipe

Péricles Capanema

Nos já distantes começos dos anos 70 alguém intitulou ▬ não me lembro quem ▬ de A Equipe a um conjunto de grandes atores da cena internacional. Nixon, Kissinger, Brejnev, Willy Brandt, Pompidou, outros ainda, pareciam agir em uníssono na condução da distensão (ou détente). Cada um deles, encarapitado em sua posição ideológica, em sintonia surpreendente promovia a política cujo maior figura simbólica foi Henry Kissinger, aqui e ali ainda lembrado hoje, com exagero, como uma espécie de Metternich desse período. Anos e anos a fio. A China estava fora da dança, ainda ensaiava os primeiros passos de uma escalada que hoje a coloca como maior opositora dos Estados Unidos. Aliás, a détente criou e favoreceu condições para a ascensão chinesa.

Por que lembro tais fatos? Simples. Acompanhando os recentes acontecimentos de Brasília, a pontiaguda qualificação ▬ A Equipe ▬ me obcecava a memória entristecida. Advogados celebrados, magistrados nos galarins da imprensa, jornalistas acólitos, políticos na sombra, quem sabe grandes empreiteiros encalacrados, quais outros partícipes?, em sintonia surpreendente, conduziram os fatos para desfecho combinado, a liminar antes impensada até mesmo por todos os que diuturnamente nos órgãos de divulgação previam qual seria o desenlace da votação do HC, cuja aprovação livraria Lula da cana. Um de tais analistas observou, escrevia sobre o inesperado desfecho provisório do caso (ainda vem coisa por aí), o Brasil não é para principiantes; e nem para experientes. Nem os mais experientes conseguem conjeturar a fundo sobre as tramoias do jeitinho brasileiro (na ocorrência, mal-empregado).

Deixemos de lado os jeitinhos, a coisa é séria. Potencialmente, de apocalípticas consequências. Em substância, não vi verberação dos fatos mais grave que a do senador paranaense Álvaro Dias, de momento também presidenciável, o que confere a suas palavras alcance maior: “O voto suspeito de seis ministros do Supremo provocou grande indignação no país. Afinal, o ex-presidente da República está acima das leis e o Supremo é uma instituição dedicada a protegê-lo evitando sua prisão? Quando uma instituição essencial ao Estado de Direito se divorcia das aspirações da sociedade, a República falece. A República faleceu. Nós vamos continuar defendendo a refundação da República.”

Tomem nota: nas palavras de um dos mais destacados senadores, o Brasil oficial é um cadáver. Sinônimo exato para faleceu, no caso é, a República foi assassinada. Se foi assassinada, existem assassinos. Mais concretamente, de forma metafórica, o Brasil assistiu ao assassinato das instituições do Estado. Aqui, empurrado de forma incoercível por lógica comezinha digo eu, assassinato perpetrado por A Equipe.

Um cambalacho levou a um assassinato nas palavras do senador. Ou o parlamentar paranaense é irresponsável, ou está afirmando que a República faleceu por ter sido assassinada em suas instituições em especial por membros do Supremo. Quem assassina (destrói) instituições basilares do Estado é incompatível com as funções que tão indignamente exerce. Deve sofre, por crime de responsabilidade, processo de impeachment, legalmente conduzido pelo Senado. Claro, embora conjeturável, nada disso acontecerá. Por quê? Inexistem condições políticas para tais providências. Membros de A Equipe o impedirão. De outro modo, o País encontra-se manietado por um contubérnio. E as vítimas indefesas do contubérnio assassino não foram apenas as instituições, a punhalada varou em especial o coração da parte mais sadia do Brasil, aquela particularmente ligada a seu passado cristão.

Em artigo de umas três semanas atrás eu dizia, soa agora quase como vaticínio: “O Brasil parece estar de braço quebrado. Sua ‘maior et sanior pars’, a gente que presta, o pessoal mais ativo e decisivo, sente que, mesmo com os atuais recursos, eliminados obstáculos artificiais, muita coisa boa pode ser feita já. [...] A ‘sana pars’ do Brasil vê com clareza, pode planejar a saída, mas as instituições a bem dizer tornam inviáveis quaisquer movimentos nesse sentido. É uma espécie de imobilidade forçada que não leva à cura.”

Constatava a execração, mas também, causada por instituições que acorrentam a nação, a imobilidade forçada diante do catástrofe. Ia adiante: “No Brasil dos anos 60 a ‘maior et sanior pars’ presenciou desgostada a irrupção nas praças e ruas do padre de passeata e da freira de minissaia, como os ferreteou Nelson Rodrigues. Hoje fazem companhia a eles o juiz de passeata e os procuradores de passeata, horrores impensáveis naqueles já distantes anos, em que a gravidade, a discrição funcional e o senso do bem comum dos magistrados parecia valor adquirido na sociedade brasileira. A espetacularização achincalhante do Judiciário avança despudorada sob o olhar asqueado da ‘sana pars’ do Brasil. São trincas em uma das colunas institucionais do Brasil. O que fazer? De certa maneira, aqui também, de forma temporária, estamos condenados à imobilidade”.

Condenados à imobilidade, outra vez, ferrolhos institucionais. Eu dizia, a coluna está trincada. Álvaro Dias, agredido pela realidade, foi mais longe, a coluna desmoronou em nossas cabeças. O que fazer, dentro do ordenamento que nos agrilhoa, contra a degenerescência nos três Poderes e em numerosas elites (ou oligarquias) da sociedade civil? Aqui está o ponto.

Atribui-se a Konrad Adenauer, o lendário chanceler do pós-guerra alemão, não sei se com fundamento, princípio político verdadeiro: o primeiro dever de todo chefe político é cobrir a própria área. Em outros termos, falar para ela, articulá-la, vivificá-la. No caso, tudo fazer para os que agora inconformados não se acomodem, mas se solidifiquem em suas posições. A expansão da inconformidade entre os de momento passivos e hesitantes, providência essencial, fica para segundo momento lógico.

A reconfiguração do panorama é urgente, a opinião pública ultrapassou um meridiano nos últimos dias. Com efeito, o Brasil inconformado com a deterioração verificou traumatizado que nossas instituições, mesmo as mais prestigiadas, estão podres, cheiram mal. Álvaro Dias chegou a dizer que membros seus assassinaram a República.

E aí, fomos jogados diante do pavoroso. Posta a decomposição geral do Brasil oficial, estando carcomidas as amarras da lei, a porta ficou aberta para destruições em proporção agora incalculável do que resta de progresso, esperança e dignidade em nosso futuro. Serão passos largos na mesma estrada rumo ao precipício, já trilhada pela Venezuela.

Para tal, poderemos assistir o espetáculo repetitivo de magistrados graves, à vera contrafações burlescas de Nelson Hungria e de tantos outros, no meio de vazia e aparatosa erudição, esbofeteando despudoradamente disposições da legislação brasileira, para a adaptar aos intuitos inconfessáveis de membros decisivos de A Equipe. Entre elas, vão aqui apenas como ilustração, as constantes do artigo 8º do novo Código de Processo Civil: “ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência”. Onde nos últimos dias se escondeu a preocupação com o bem comum? Com a dignidade? A obediência à razoabilidade?

Diante da aparente inutilidade de reagir, a tentação dos inconformados será a acomodação diante da inflexibilidade dos que conduzem a farândola demolidora. Quando não a adesão a soluções amalucadas. O caminho é outro: fugir do desânimo, lucidez e persistência na esperança, mesmo dentro da tragédia. Deus não abandonará um País fruto de tantas lágrimas. Como santo Agostinho, resgatado do descaminho pelo sofrimento e oração de santa Mônica, um dia brilhará para o Brasil aurora de enorme grandeza cristã.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Raios dourados no crepúsculo fuliginoso


Raios douradas no crepúsculo fuliginoso

Péricles Capanema

Tenho sido severo ▬ suponho, com justiça ▬ com aspectos da vida nacional. Severidade pode ser sinônimo de objetividade para quem procura observar com realismo. Recebo estímulos; aqui e ali, censuras. Não importa, é quinhão inevitável. Qualquer um que, mesmo que modesta e de forma efêmera, pise o âmbito público, está sujeito a boas críticas e a injustiças. Moral da história, tocar a vida sem se preocupar com elas.

Neste texto vou virar a quilha de meu navio e navegar em rumo diverso. A palavra ufanismo com conotação de orgulho exagerado por determinada coisa tem sido associada ao conde Afonso Celso (1860-1939). Pouca gente hoje sabe, Afonso Celso, conde pontifício, foi filho do visconde de Ouro Preto, último presidente do Conselho de Ministros da monarquia brasileira. Professor, historiador, escritor, deputado geral no Império, é dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, por ele presidida por duas vezes.

Entre suas obras figura o opúsculo “Por que me ufano de meu País”, publicado em 1900, redigido, singelo o confessa, para que seus filhos amassem o Brasil. É trabalho ingênuo, prova pouco e mal o que deseja demonstrar. Mas tem frescor, a bem dizer inexistente no convulsionado Brasil de nossos dias. Todos sabemos, o frescor é das mais belas manifestações da vida, em especial das coisas que nascem. O país conservava traços da infância; apresenta hoje, sob tantos pontos de vista ▬ sejamos objetivos ▬ catadura de maturidade depravada.

Vejam o que ele diz dos homens públicos do Brasil de então (era ainda a geração do Império), um dos motivos enumerados pelo escritor para esperar na grandeza da Pátria: “Honradez no desempenho de funções públicas ou particulares. A estatística dos crimes depõe muito em favor dos nossos costumes. Viaja-se pelo sertão, sem armas, com plena segurança, topando sempre gente simples, honesta, serviçal. Os homens de Estado costumam deixar o poder mais pobres do que nele entram. Magistrados subalternos, insuficientemente remunerados, sustentam terríveis lutas obscuras, em prol da justiça, contra potentados locais. Casos de venalidade enumeram-se raríssimos, geralmente profligados. A República apoderou-se de surpresa dos arquivos do Império: nada encontrou, que o pudesse desabonar. Por ocasião dessa revolução, senadores ficaram tão pobres que o novo regime lhes ofereceu pensões. Ao Imperador que governara 50 anos, assegurou a Constituição Republicana meios de subsistência de que ele precisava, mas que não aceitou. Quase todos os homens políticos brasileiros legam a miséria às suas famílias. Qual o que já se locupletasse à custa do benefício público?”

Parece que Afonso Celso fala de outro país e outro povo. A honestidade (Afonso Celso diz honradez) era característica comum, presente em nossas elites políticas de então, reflexo de realidade social generalizada. Temos agora sob os olhos a república dos ratos magros, esfomeados, lembrando imagem de Roberto Jefferson. Também outra é a realidade na sociedade.

O viço presente no livro embebe a descrição do quotidiano de são José de Anchieta, inserido ali para nos fazer sentir o sabor do Brasil nascente. Leva-nos a crer que, pelos rogos do padroeiro, Deus se apiedará do Brasil e o recolocará na trilha almejada pelo grande missionário e fundador de nação: “Vem depois José de Anchieta, o taumaturgo, o santo do Brasil. Anchieta vai para Piratininga como mestre-escola. Passa aí misérias sem nome, fome, frio, falta de roupa, morando numa pequena barraca, onde funcionavam as aulas, e que era, a um tempo, enfermaria, dormitório, refeitório, cozinha, despensa. Ensinava latim e aprendia tupi, de que compôs o vocabulário e a primeira gramática. Trabalhava dia e noite, escrevendo as lições para cada aluno, pois não havia livro. Escrevia hinos, baladas, interrogatórios para confissões, resumos dialogados da fé cristã e autos teatrais que os índios representavam ou viam representar, em palcos por ele improvisados. Exercia funções de médico, barbeiro, fazedor de alpercatas, cujos cordões serviam também de disciplinas. Poeta, elaborou um poema sobre a vida da Virgem Maria, na esperança de manter a própria pureza, fixo o pensamento na mais pura das mulheres. Sem papel, pena e tinta, metrificava os versos, passeando. Traçava-os em seguida na areia e os confiava à memória.”

Por que destaco a cena? Na árvore as raízes sãs valem mais que tronco, galhos, flores e frutos. Delas tudo depende. Aí acima estão as mais lídimas raízes do Brasil, mais enterradas que as analisadas com talento e lentes deformantes por Sérgio Buarque de Holanda. No meio da tormenta, justificam esperanças sobrenaturais de que um dia se tornará realidade o que, com ufania, ainda que em esboço esmaecido, foi confusamente antevisto pelo simpático conde pontifício.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Intolerância mal disfarçada


Intolerância mal disfarçada

Péricles Capanema

Fernando Henrique Cardoso concedeu reveladora entrevista, largamente distribuída, a Fernando Grostein Andrade. Como se sabe, o atual presidente de honra do PSDB, além de elder stateman, é o mais conhecido intelectual público do Brasil. A entrevista tem advertência importante, vem a seguir; traz ainda péssimas posições, mau agouro para o que pode vir para o Brasil. Por itens.

1. A advertência: o tráfico vai financiar e eleger candidatos. Estamos a sete meses da eleição de deputados, senadores, governadores, presidente da República. As campanhas serão caríssimas, mesmo que pouca gente o reconheça. Lembro, ninguém ou quase tanto quis fazer valer o voto facultativo, o que as baratearia de imediato. E o STF proibiu o financiamento empresarial. O dinheiro público será insuficiente, o grosso virá de outras fontes, em geral não registradas, receia-se com razão. Diz o antigo presidente da República: “Olha, quando comecei a mexer com essa questão de política de drogas, minha preocupação era com a democracia. Pouco a pouco, os narcotraficantes foram tendo influência política. Pablo Escobar é o maior exemplo disso. Mas não é só ele e não é só lá. O Brasil ainda não tinha chegado a este ponto, mas está começando. O problema é que os narcotraficantes dominaram certas áreas. E começam a entrar na vida política. Aconteceu na Colômbia. Vai acontecer no Brasil, está acontecendo. O tribunal eleitoral proibiu o uso do dinheiro das empresas., quem é que tem dinheiro? É o narcotraficante, as igrejas [evangélicas] têm, que é do dízimo”.

2. Apoio ao desatino da reforma agrária brasileira e simpatia pelo MST. Na entrevista, FHC satisfeito vira as costas para os ruralistas e aplaude ufano a subversão no campo, certamente prejudicando a candidatura Alckmin e de vários companheiros do PSDB, mas danos eleitorais parecem migalhas, diante da perspectiva de mais uma vez o político tucano se mostrar afinado com a esquerda, mesmo a mais radical: “Reforma agrária no Brasil foi feita por duas pessoas. Duas pessoas, não, dois governos. O do Lula e o meu. Ninguém sabe o quanto de terra foi distribuído. É uma barbaridade. Mas fui eu o Lula quem fizemos. O MST ajudou, porque faz barulho”.

3. Só a briga pelo poder afasta PT e PSDB. FHC vê os tucanos como doutrinariamente próximos ao PT, partido que tem em seus documentos o coletivismo total como meta (coletivismo é outro nome para comunismo): “Por que o PT e o PSDB nunca se juntaram? Por disputa de poder, não por disputa ideológica. Se eu pudesse reviver a História eu tentaria me aproximar não só do Lula, mas de forças políticas que eu achasse progressistas. Eu gosto do Fernando Haddad”. O presidente honorário do PSDB continua indiferente às devastações eleitorais que pode causar em correligionários, escorraçando eleitorado que agora pensa votar no PSDB como barreira ao PT. Esbofeteia alegremente conveniências eleitorais de aliados e bafeja possibilidades de vitória de adversários.

4. FHC prega frente comum com correntes libertárias. Enquanto que, da direita, quer distância, em especial dos conservadores em matéria de costumes, faz frente comum com libertários: “Você tem uma direita em matéria de costumes, conservadora. Eu sou liberal em matéria de costumes, completamente liberal. Acho que a diversidade tem de ser respeitada. O pessoal da direita reacionária não acha isso. Está errado”.

5. Jean Wyllis, coincidimos em geral. Jean Willys (PSol-RJ) é o deputado das causas LGBT, tem posições à esquerda do que publicamente defende a maioria dos deputados do PT. FHC vai até ele: “Eu já defendi o Jean Willys publicamente. Tive um debate com ele e em geral coincidimos. Eu o defendi publicamente, porque acho que ele é corajoso”.

6. Intolerância com conservadores e direitistas. Num sentido, o líder tucano favorece o programa demolidor da esquerda, almeja para ela liberdade total em suas tentativas de implantá-lo. Em rumo oposto, gostaria de cercear o pensamento “não progressista”. Intolerante, advoga na prática, ainda que de forma disfarçada, pelo banimento da cena pública de ideias das quais discorda. Para elas, ostracismo perpétuo, a mordaça inconfessada. Dois exemplos. O BTG tem convidado pessoas públicas de vários quadrantes ideológicos para palestras, debates e entrevistas. Convidou Jair Bolsonaro. FHC não gostou, achou “irresponsável” a atitude do banco: “Pra que convidar alguém que tem esse tipo de pensamento?” Outra vítima da intolerância. O conceituado economista Paulo Guedes apresentou esboço de programa econômico de governo com ênfase nas privatizações. Tem ficado clara sua preocupação social, conjugada com o propósito de sanear as contas do Estado e estimular a produção. Com as privatizações, segundo ele, haveria recursos públicos para, por exemplo, aplicar em saúde e educação, hoje na UTI. FHC, coçando a língua para atacá-lo, escolheu o caminho fácil: “Eu não conheço o Paulo Guedes, mas pelo que leio ele acredita que basta liberalizar que tudo se resolve. Tá na lua, né”? São no mínimo declarações irresponsáveis por induzirem o leitor a ter ideia falsa do que pensa o economista. Não conhece e já sai descendo a madeira?

Não há inimigos à esquerda, foi lema conhecido na Europa, em especial na França. Existe uma misteriosa atração pelo abismo (pelo extremo da própria posição) presente em correntes de centro-esquerda. Existiu em Kerensky. Abriu o caminho para Lenine. Existiu em Eduardo Frei. Abriu o caminho para Allende. Quem pode negar que o período FHC em boa medida preparou os oito anos de Lula? A entrevista revela a mesma misteriosa atração pelo abismo no mais importante líder peessedebista ▬ um exemplo do que existe Brasil afora em grupos dirigentes dos mais variados setores. Inexistindo vacina na opinião pública, a conivência e a subserviência de tanta gente podem ser decisivas para a determinação dos destinos do Brasil pós-eleição.

Pelo menos deixa no ar alerta benéfico. Consequência dela incoercível, vive na lua quem achar que bastaria votar de olhos fechados em candidato tucano para salvar o Brasil do petismo e de outras formas de bolchevismo atualizado.

quarta-feira, 7 de março de 2018

O Brasil de braço quebrado


O Brasil de braço quebrado

Péricles Capanema

Estou de braço quebrado. Pior, o direito, e sou destro. Já sei, problema meu, ninguém tem nada a ver com isso. Podem ficar tranquilos, não vou falar de mim só por falar, sirvo apenas de exemplo, tratarei mesmo é do Brasil, catando milho nas teclas do computador com a mão esquerda. Eça de Queiroz imaginou a vida de Gonçalo Mendes Ramires como metáfora de Portugal. Modestamente, “proportione servata”, fiapos disso seguem abaixo.

Quieto, não sinto dor; se mexo, dói pra chuchu. Não espanta, a imobilidade deve ser total, advertiu o ortopedista, uns 45 dias na tipoia, por baixo. Obedeço, fazer o quê, mas é difícil. A cabeça continua igual, ainda que um tanto desorientada pelo fechamento brusco do leque das possibilidades. Hoje posso fazer quase nada, um tanto de coisas vai sendo deixada para trás a toda hora, sei lá se e quando as retomarei. Aflijo-me em olhar o abismo entre o que quero e o que posso fazer.

A sensação primeira foi de turbilhão, algo como um beduíno inexperiente envolto por tempestade de areia. Dores, desorientação, desconhecimento do que vem por aí e terei de enfrentar. Até o momento, ignoro se será necessário a cirurgia ou se bastará o repouso para a reconstituição da fratura. Nem sei se o braço terá os movimentos prejudicados. Como será a fisioterapia? Disseram-me, vai ser necessária, nada mais. Na melhor hipótese, daqui a poucas semanas tudo volta ao que era. Tentei escrever, saiu uma garatuja. Perguntei tímido ao médico: ▬ Posso escrever? ▬ Melhor não. ▬ Paro por aqui, ao contrário de Xavier de Maistre não vou relatar viagem em torno do meu braço partido. Rezem por mim.

O Brasil parece estar de braço quebrado. Sua “maior et sanior pars”, a gente que presta, o pessoal mais ativo e decisivo, sente que, mesmo com os atuais recursos, eliminados obstáculos artificiais, muita coisa boa pode ser feita já. É preciso que, anos sem fim, apenas 2,1% dos alunos de famílias pobres tenham aproveitamento escolar decente? Nenhuma nação terá futuro de relevo com tragédia dessas. Em Hong Kong, 53,1% dos filhos de pobres têm bom desempenho na escola; em Macau, 51,7%; em Cingapura, 43,4%; no Japão, 40,4%. Sexagésima segunda nossa posição entre os países, os dados, da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), estão nos jornais dos últimos dias. Nas últimas semanas também fomos informados por órgão ligado ao Banco Mundial que no item Leitura (ciências humanas, digamos), posto o ritmo atual, precisaremos de 260 anos para atingir o nível dos países desenvolvidos. E no item Matemática (ciências exatas, digamos), 75 anos. É como estar de braço quebrado. A “sana pars” do Brasil vê com clareza, pode planejar a saída, mas as instituições a bem dizer tornam inviáveis quaisquer movimentos nesse sentido. É uma espécie de imobilidade forçada que não leva à cura.

No Brasil dos anos 60 a “maior et sanior pars” presenciou desgostada a irrupção nas praças e ruas do padre de passeata e da freira de minissaia, como os ferreteou Nelson Rodrigues. Hoje fazem companhia a eles o juiz de passeata e os procuradores de passeata, horrores impensáveis naqueles já distantes anos, em que a gravidade, a discrição funcional e o senso do bem comum dos magistrados parecia valor adquirido na sociedade brasileira. A espetacularização achincalhante do Judiciário avança despudorada sob o olhar asqueado da “sana pars” do Brasil. São trincas em uma das colunas institucionais do Brasil. O que fazer? De certa maneira, aqui também, de forma temporária, estamos condenados à imobilidade.

A podridão que exala das estatais (deixo de lado no momento os prejuízos amazônicos, a incompetência e o descalabro proverbiais), constatada no mensalão, no petrolão e no eletrolão, na bica, fez com que a privatização avançasse no público. Já não se admite como possível, muito menos como recurso eleitoral, a ridícula figura de Geraldo Alckmin vestindo jaqueta com os logos das estatais, herança melancólica da campanha de 2006. Melhorando, vergonhosa. O atual é Paulo Gudes, o principal assessor econômico de Bolsonaro, declarando o que vai a seguir sem acarretar perda de densidade eleitoral para o candidato: “O governo é muito grande, bebe muito combustível. Mas se você olhar para educação, saúde, ele é pequeno. Já que a democracia vai exigir a descentralização de recursos para Estados e municípios, o governo federal tem que economizar. Onde? Na dívida. Se privatizar tudo, você zera a dívida, tem muito recurso para saúde e educação. Ah, mas eu não quero privatizar tudo. Privatiza metade, então. Já baixa metade da dívida. Tem clima para não privatizar? Onde começou o mensalão, Bradesco ou Correios? Onde se acusa o Eduardo Cunha? Caixa, loterias, fundos de pensão. Onde foi o petrolão? Petrobras. Você vê clima para continuar com as estatais? O povo brasileiro é contra? Ou será que são vocês [imprensa]? Eu nunca escutei isso do povo. Eu escutei isso da Folha, de jornalistas tucanos, petistas. Por que não pode vender o Correio? Por que não pode vender a Petrobras? E se o mundo for para um negócio de energia solar? E o shale gas [gás de xisto]? E se o petróleo, daqui a 30 anos, estiver valendo US$ 8 [o barril]? Você sentou em cima de um totem, ficou adorando o Deus do óleo. Por que uma empresa que assalta o povo brasileiro tem que continuar na mão do Estado”? Aqui a fratura de décadas, parece, começa a consolidar.

Um monte de fraturas ainda precisa consolidar. Já estou no fim. Só dois exemplos. O disparate delirante da reforma agrária. O programa de décadas atira pelo ralo uma dinheirama que não temos, não aumenta a produção, não ajuda os pobres, é foco de corrupção. Todo mundo tem receio de tocar nesse tumor de estimação. Outro tumor, a subserviência e entrega do Brasil em relação à China comunista, colocando a independência nacional em risco. Também já completa décadas. Fraturas e tumores, temas atuais para a campanha presidencial. O que deles pensam os candidatos? Rezem pelo Brasil e votem bem, cuidado também na escolha de deputados, senadores e governadores, são coisas boas que podem ser feitas já.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas

Péricles Capanema

Tenho lido sobre a situação dos católicos na China e despertam entusiasmo recentes atitudes do cardeal-arcebispo resignatário de Hong Kong, dom Joseph Zen, religioso salesiano, 85 anos, saúde delicada. Cada vez mais isolado nas cúpulas eclesiásticas, cada vez mais ligado e próximo ao católico comum, ao fiel que frequenta igrejas e sacristias (sou um deles). Por quê? Verba movent, exempla trahunt. Peçamos a Deus que em seus próximos passos continue a brilhar a fidelidade, coragem e lucidez.

O perfil atual de dom Joseph Zen o aproxima de um herói anticomunista, o cardeal Mindszenty (1892-1975) que resistiu primeiro ao governo fascista; depois se opôs ao governo comunista de Budapeste (foi preso, torturado e condenado à prisão perpétua em 1949). Ficou na cadeia até ser libertado pelos insurgentes de 1956, quando se refugiou na embaixada dos Estados Unidos. Também se opôs à política de aproximação de Paulo VI com os governos comunistas da Europa Oriental (a chamada Ostpolitk chefiada pelo cardeal Agostino Casaroli). A História já deu razão ao antigo primaz de Eztergom, situação que, aliás, lhe foi tirada por Paulo VI; o martirizado Cardeal era obstáculo aos acordos com Budapeste. Assim se referiu ao cardeal Mindszenty o prof. Plinio Corrêa de Oliveira: ““O non possumus firme de Vossa Eminência, repercutindo no mundo inteiro, vale por uma lição e por um exemplo próprios a manter os católicos na via da fidelidade aos ensinamentos tradicionais imprescritíveis, emanados da Cátedra de Pedro em antigos dias de luta e de glória. E é por esta razão que, a par da admiração, tributamos a Vossa Eminência um agradecimento profundo. […] O Reino Apostólico da Hungria recebeu desde Santo Estêvão a missão gloriosa de ser baluarte da Igreja e da Cristandade. Esta missão, ele a cumpre por inteiro em nossos dias, na Pessoa augusta de Vossa Eminência”.

Ressoam as palavras de Nosso Senhor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas. Porém o mercenário e o que não é pastor, de quem não são próprias as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas; e foge; e o lobo arrebata e faz desgarrar as ovelhas”, Evangelho de são João.

A parábola faz lembrar dom Joseph Zen. Pastor zeloso, recusa-se a virar as costas para ovelhas débeis e, congruentemente, sorridente acolher ferozes lobos. No caso, abrir as portas do redil. O cardeal chinês defende a Igreja subterrânea ▬ ameaçada de abandono e traição por muitos dos que a deviam proteger ▬ denunciando perigos mortais na aceitação do predomínio da Igreja patriótica (fantoche do governo), agora favorecida em sua subserviência nas tratativas levadas a cabo por diplomatas da Santa Sé. Sintoma horroroso da presente situação, noticiou o New York Times de 11 de fevereiro que um dos dois bispos católicos da Igreja subterrânea de quem a Santa Sé reclama a renúncia, dom Vicente Guo Xijin, bispo de Mindong, aceitou se demitir e ser substituído por um bispo da Igreja oficial, indicado pelos comunistas.

Dom Joseph Zen comentou no seu blog recentes declarações do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, divulgadas por La Stampa. Começa assim: “Não há razões para temer uma igreja cismática criada pelo Partido Comunista. Desaparecerá com o colapso do regime. Mas será horrível uma igreja cismática com as bênçãos papais”.

O cardeal Pietro Parolin afirmou que iria curar as feridas dos católicos perseguidos na China continental com o “bálsamo da misericórdia”. Retrucou dom Joseph Zen: “Misericórdia para os perseguidores? Para seus cúmplices? Premiar traidores? Castigar os fiéis? Forçar um bispo legítimo a entregar seu lugar para um excomungado? De fato, é esfregar sal nas feridas. Noto que há continua menção à sua compaixão pelos sofrimentos de nossos irmãos na China. Lágrimas de crocodilo”.

“[Os católicos chineses] são vítimas da perseguição de um poder ateu totalitário. Empregar o bálsamo da misericórdia? Não há agravos pessoais para serem perdoados. Eles precisam ser libertados da escravidão. Esta situação dolorosa não foi criada por nós, mas pelo regime. Os comunistas querem escravizar a Igreja”.

Dom Joseph Zen relaciona a presente situação com o passado recente da Igreja: “[O cardeal Paroli] adora a diplomacia da Ostpolitik de seu professor, Casaroli”.

Em matéria do “Wall Street Journal”, 14 de fevereiro, o arcebispo resignatário de Hong Kong analisou as notícias de que a China exige que a Santa Sé aceite os sete bispos da chamada Igreja Patriótica, bem como que dois bispos fieis a Roma apresentem renúncia para dar lugar a dois indicados pelo governo. Sobre tais tratativas, advertiu o cardeal-arcebispo: “Você está colocando lobos na direção do rebanho e eles farão um massacre. Estão indicando más pessoas para serem pastores do rebanho”.

O que querem os católicos chineses? Responde o Purpurado em seu blog: “Verdadeira liberdade religiosa, que não prejudique, antes favoreça o verdadeiro bem da nação”.


Também foi claro a respeito de sua posição relativa ao Papa Francisco: “Continuo convencido que existe uma divisão entre a maneira de pensar de Sua Santidade e a maneira de pensar de seus colaboradores que se aproveitam do otimismo do Papa. Até que me seja provado o contrário, estou convencido que defendi o bom nome do Papa, tirando-lhe a responsabilidade das coisas erradas que estão sendo feitas por seus colaboradores. Se algum dia forem assinados estes maus acordos com a China, obviamente terão o apoio do Papa, então eu me retirarei em silêncio para uma vida monástica. Não serei chefe de rebelião contra o Sumo Pontítice, o Vigário de Cristo na Terra”.