domingo, 19 de novembro de 2017

Pasmaceira e festança suicidas

Pasmaceira e festança suicidas

Péricles Capanema

“Quando a China acordar, o mundo tremerá”, frase atribuída a Napoleão, dita em 1816; em números redondos, faz duzentos anos. A China acordou. E o mundo não parece tremer. Ou, temeroso e já acovardado, finge não divisar o dragão no horizonte?

Melhorando, acontece de tudo, temos gente tremendo e pessoal festejando. E a maioria mundo afora? Desatenta. Sua atitude lembra a constatação de Aristides Lobo, ministro do Interior do governo provisório do marechal Deodoro, relatando o clima do 15 de novembro de 1889: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”.

Aqui opinião desatenta equivale a público bestializado. E, por cima, padecemos enorme propaganda para que a maioria, hoje insciente do despertar chinês, não comece a tremer. Mais, que a tremedeira não se metamorfoseie em reação salvadora.

Em catadupa isso me veio à mente ao ler detidamente o discurso de Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista e presidente da China em 18 de outubro, pronunciado no 19º congresso do PCC (Partido Comunista Chinês). Prestação de contas, diretrizes, planos. O líder comunista, qualificado há pouco pelo Economist de “o homem mais poderoso do mundo” apontou em geral com clareza, às vezes de forma disfarçada, o que vem por aí.

O PC chinês mescla ditadura política, dirigismo econômico e forte nota nacionalista. Criou um Estado e está moldando uma sociedade apresentados como modelos, em especial para os países subdesenvolvidos. Para o Brasil, também, óbvio. Proclamou o chefe do comunismo chinês: “A nação chinesa conseguiu enorme transformação, levantou-se, tornou-se rica, está ficando forte. Está tornando realidade a perspectiva brilhante do rejuvenescimento. Mostra que o socialismo científico está cheio de vitalidade no século 21 chinês. O estandarte do socialismo com características chinesas drapeja alto e ufano diante de todos. Significa que o caminho, a teoria, o sistema e a cultura do socialismo com características chinesas continuaram se aperfeiçoando, abrindo estrada para que outros países em desenvolvimento também alcancem a modernização. Oferecemos uma opção nova para outros países e nações que pretendam acelerar seu desenvolvimento [...] Oferecemos a sabedoria e a abordagem chinesas na resolução dos problemas enfrentados pela humanidade”.

Na resolução dos problemas religiosos, aqui vai a fórmula dos déspotas ateus de Pequim: “Implementaremos inteiramente a política fundamental do Partido Comunista Chinês em matéria religiosa, manter o princípio de que as religiões na China devem ser chinesas em sua orientação e indicaremos o rumo às religiões de modo a que possam se adaptar à sociedade socialista”. Sem disfarces, as igrejas serão nacionais, harmônicas com o rumo do comunismo, apenas longa manus das políticas do governo e do Partido. Orientações da Santa Sé e do Vaticano, por exemplo, no máximo, só as permitidas e previamente filtradas.

Em matéria política, abaixo, nas palavras de Xi Jinping o modelo proposto ao Brasil, de fato ao mundo: “A China é um país socialista de ditadura democrática popular sob a liderança da classe trabalhadora”. Sua política de abertura será sujeita aos “Quatro Princípios Principais”: “Permanecer no socialismo, mantendo a ditadura democrática popular, a liderança do Partido Comunista da China o pensamento marxista-leninista e ainda o maoísta”. Inexiste dúvida quanto ao papel do Partido Comunista: “O que define o socialismo com características chinesas é a liderança do Partido Comunista da China. O Partido é a mais alta força da liderança política. [...] O Partido exerce liderança sobre todos os âmbitos da ação humana [...] É preciso trabalhar com afinco para manter a autoridade e a liderança centralizada e unificada do Comitê Central, e seguir minuciosamente o Comitê Central no pensamento, orientação política e ações”.

Na análise do quadro, algumas amostras. Quem sustenta o regime da Coreia do Norte é a China. A ajuda chinesa à ditadura comunista não é divulgada, mas todos sabem que é enorme. E a China boicota as sanções aplicadas à Coreia do Norte. Observadores têm qualificado Pyongyang de, na prática, mera extensão do governo de Pequim. Um outro sintoma. O AidData pesquisou ajuda oficial da China a 140 países de 2000 a 2014. No item Assistência Oficial ao Desenvolvimento o país que mais recebeu ajuda foi a ditadura comunista mais escancarada nas Américas, Cuba, 6,7 bilhões de dólares. E, hoje, a China é dos grandes apoios à Venezuela. De outro modo, nas palavras e nos atos, a China tem lado e não o esconde.

Passo ao Brasil. Setores importantes entre nós festejam o que a seguir relato apenas como exemplificação. A Oi, em recuperação judicial, é a terceira maior operadora do setor de telecomunicações da América do Sul. De momento, a mais importante proposta para a salvar de suas agruras veio da China Telecom, estatal chinesa, que pode ser a nova dona da Oi.

Outro exemplo. Em começos de novembro a FIESP promoveu reuniões do empresariado brasileiro com bancos chineses: Industrial and Commercial Bank of China, China Construction Bank, Agricultural Bank of China, Bank of China, Bank of Communications, seguradora Sinosure. Aos representantes do setor industrial brasileiro foram apresentadas novas oportunidades de negócios, bem como possibilidades de crédito com taxas mais baixas e prazos mais longos.

O Industrial and Commercial Bank of China, em ativos e valor de mercado é o maior banco do mundo. É estatal chinesa. O China Construction Bank em 2015 era o segundo maior banco do mundo. É estatal chinesa. O Agricultural Bank of China tem 320 milhões de clients. É estatal chinesa. O Bank of China é um dos cinco maiores bancos estatais da China. O Bank of Communications, estatal também, é outra empresa mamute estatal. A Sinosure, seguradora gigante, também é estatal chinesa.

Terceiro. O governo do Pará está promovendo turnês para atrair capitais. Só a Ferrovia Paraense, 1.312 quilômetros, exigirá investimentos de 14 bilhões de reais. O total de investimentos incluirá outros projetos de infraestrutura, e ainda aplicações em áreas como agronegócio e mineração. Uma comitiva chefiada pelo governador visitou Pequim em setembro e lá tratou das possibilidades da presença chinesa na economia do Estado. À frente das tratativas aparecem Chang Yunbo e Sun Ziyu, respectivamente presidente e vice-presidente da China Communications Construction Company (CCCC). Em Pequim, o último declarou: “Esse momento é bastante importante, pois aqui há outras empresas da China [...] que, ao conhecerem melhor o Pará, também poderão investir no Estado”. A China Communications Construction Company (CCCC), 100 mil funcionários, é estatal chinesa.

Mais um exemplo. Temos pela frente a provável privatização da Eletrobrás. Podem esperar, enxames de estatais chinesas disputando e vencendo os leilões. Deus queira esteja eu errado. Em 2017, até outubro, estima-se, a China terá investido R$35 bilhões no Brasil (compra de ativos, bem entendido). Repito, sou favorável às privatizações e ao capital estrangeiro entre nós. Mas não à presença avassaladora e crescente do Partido Comunista Chinês e do governo chinês como dono oculto [é um só o dono], mas indisfarçado, de enormes fatias da economia brasileira. Todos os diretores de todas essas estatais são pessoas de confiança do Partido Comunista e do governo chinês. Em termos mais claros, boa parte, se não a virtual totalidade, da alta direção delas é de membros graduados do Partido Comunista Chinês. São agentes ▬ lembro o conselheiro Acácio ▬, agirão sempre em sintonia com os interesses do Partido Comunista Chinês e do governo da China. Convém lembrar, o PCC tem 88 milhões de membros, oligarquia fundada em privilégios perversos, que tiraniza 1,4 bilhão de chineses.

Outrora, e incluo empréstimos concedidos até no Império, existem estudos começando em 1824, quando o governo ou o mercado eram financiados por bancos privados com sede na Europa ou nos Estados Unidos havia um berreiro ensurdecedor. Vendilhões, lacaios, entreguistas, sei lá mais o quê. O País estaria sendo reduzido à condição de colônia. Era capital privado, insisto, em volumes bem inferiores ao atual capital estatal chinês despejado no Brasil.

Hoje, nada de berreiro, só silêncio e louvaminhas. O PT se cala, certamente satisfeito com o rumo sempre estimulado por ele, nacionalistas de esquerda e até de direita se calam, industriais importantes festejam possibilidades de negócios, políticos de destaque anunciam maiores investimentos internos e mais exportação (emprego e renda melhorados). Insciência? Cumplicidade? Adormecimento? Em qual proporção? Sei lá. Qual o gás do dr. Ox do conto de Jules Verne, algo narcotiza a nação e faz generalizada a pasmaceira. E temo que em outros países do mundo esteja acontecendo o mesmo fenômeno e as mesmas reações.


Brasileiros com vivo amor a nosso futuro tremem de pavor (Napoleão acertou pelo menos quanto a uma minoria). Circunvagando o olhar, observam desolados e inconformados a passagem da farândola festeira dos que celebram ufanos a perda gradual da independência nacional rumo a um estado de efetivo protetorado. “Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Corredeiras e remanso

Corredeiras e remanso

Péricles Capanema

Iria examinar outro assunto, a documentação não chegou, fica para próxima. Hoje relembrarei riqueza espiritual nossa, dela queria me ocupar faz tempo.

Antes, preciso registrar fato recente. Foram realizados em 27 de outubro os leilões do pré-sal, promovidos pelo governo, melhorando, pela ANP, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Objetivos sempre reafirmados por ocasião de tais eventos, menos presença do Estado na economia, eficiência, competitividade, maior geração de riquezas. Eu poderia acrescentar, mais sociedade, menos Estado e, com isso, mais independência dos cidadãos e do País. Será?

O bloco Sul de Gato do Mato foi arrematado pelo consórcio formado pela Shell (80%) e Total (20%). O bloco Entorno de Sapinhoá foi arrematado pelo consórcio Petrobrás (45%), Shell Brasil (30%) e Repsol Sinopec (25%). A Sinopec é estatal chinesa, dirigida pelo governo e Partido Comunista chineses. Norte de Carcará, o terceiro bloco, foi arrematado pela Statoil Brasil (40%), Petrogal Brasil (20%) e Exxon Mobil Brasil (40%). A Statoil é estatal norueguesa. Peroba, o quarto, foi arrematado pela Petrobrás (40%), CNODC Brasil (20%) e BP Energy (40%). A CNODC é estatal chinesa, repito, dirigida pelo governo e Partido Comunista chineses. Alto de Cabo Frio Oeste, o quinto bloco, foi arrematado pela Shell Brasil (35%), CNOOC Petroleum (20%) e QPI Brasil (25%). A CNOOC é estatal chinesa, repito de novo, dirigida pelo governo e pelo Partido Comunista chineses. A QPI é estatal do Catar. Alto de Cabo Frio Central, o último bloco, foi arrematado pela Petrobrás (50%) e BP Energy (50%). Programa de privatização deveria significar entregar à iniciativa privada, a particulares, atividades econômicas antes levadas adiante pelo Estado. Mas aqui vou deixar de lado esse aspecto. Só sublinho agora um ponto: a China comunista, potência imperialista, continua a comprar planejada e avidamente fatias da economia brasileira, sob a indiferença cega ou a cumplicidade criminosa de decisivos setores da vida pública nacional. A geração atual está pondo em risco, insciente ou criminosamente, a independência e a soberania do Brasil de amanhã.

Passo agora à riqueza espiritual de que queria tratar buscando testemunhos em passado ainda recente. Mesmo nos rios mais revoltos ▬ e o Brasil infelizmente rola correnteza abaixo ▬, aqui e ali aparecem remansos. A gente neles se detém, retempera forças, e logo depois volta a navegar.

Vamos entrar em um deles. Stefan Zweig (1881-1942) foi escritor dos mais vendidos mundialmente. Intelectual reconhecido, como literato brilhou em quase tudo: poeta, romancista, dramaturgo, jornalista, biógrafo. Sem prática religiosa (“Minha mãe e meu pai eram judeus apenas por acidente de nascimento”), comodamente instalado na alta burguesia judaica, o pai industrial e a mãe filha de banqueiro, Stefan Zweig nasceu, viveu e formou mentalidade na Viena culta de Francisco José, continuador em boa medida da antiga política dos Habsburgos de harmonizar diferenças e estimular situações em que cada pessoa, cada família, cada região, sem lesar o bem comum, podia desenvolver suas qualidades. A convulsão da política europeia o expulsou de lá. Fugindo da guerra e do antissemitismo, o escritor morou na Inglaterra e nos Estados Unidos; terminou por fixar residência em Petrópolis, onde, deprimido, matou-se em 1942.

Em 1941 publicou livro de boa repercussão “Brasil, país do futuro”, edições simultâneas em vários idiomas; eram impressões sobre o País que o havia acolhido. Em certo momento, retrata o clima social generalizado do Brasil daquela época. Espero pôr em destaque uma forma de relações humanas, a riqueza de que falava, reproduzindo fiapos do livro. Por possui-la, Stefan Zweig acreditava, o Brasil merecia a admiração do mundo.

“O Brasil, por sua estrutura etnológica, se tivesse aceito o delírio europeu de nacionalidades e raças, seria o país mais desunido, menos pacífico e mais intranquilo do mundo”. Discorre a seguir sobre a imensa diversidade de raças e continua: “Da maneira mais simples o Brasil tornou absurdo o problema racial que perturba o mundo europeu, ignorando simplesmente o presumido valor de tal problema”. De outro modo, constatou benquerença tão generalizada, digamos, que nem percebeu o problema do racismo no Brasil.

Passa a conjeturar sobre a origem de tal situação: “Certa brandura e uma suave melancolia”. Nos estudantes “inteligência unida a modéstia e polidez tranquilas”. No geral “essa forma mais suave e mais serena da vida é um benefício e uma felicidade”.

Em virtude do clima social predominante, “o indivíduo sente a alma aliviada logo que pisa esta terra. Primeiramente, pensa que este efeito calmante é apenas alegria dos olhos, e gozo dessa beleza sem par que, por assim dizer, de braços abertos chama a si o indivíduo que acaba de chegar”. Continua: “Em geral ao brasileiro é alheio tudo o que é violência, brutalidade e sadismo”.

Tal maneira de ser se reflete na política: “O Brasil não tem desejos de conquistar territórios, não possui tendências imperialistas. O princípio básico de sua ideia nacional [é] o desejo de conciliação e acordo, produto natural dum predicado do povo”.

Despreocupado com a segurança, Stefan Zweig pacificamente visitou favelas, então mais pobres que as atuais: “Tinha um mau pressentimento. Esperava receber um olhar raivoso ou uma palavra injuriosa. Mas para esses indivíduos de boa-fé um estrangeiro que se dá ao trabalho de subir aqueles morros, é um hóspede bem-vindo e quase um amigo”. Visitasse-as hoje sem a permissão do chefe da boca de fumo, para começo de conversa seria depenado. Facilmente sequestrado ou morto.

Não estou sobrevalorizando as impressões do vienense. Tem seu ponto-de-vista de europeu educado na Belle Époque numa das capitais mais civilizadas da Europa, no seu olhar pode facilmente existir influência do romantismo do século 19. Nada disso excluo. Mas também não quero subestimá-lo. Dados os descontos, Zweig parece contemplar outro mundo, tragado pelo tempo. À primeira vista, sacudido pelas incompreensões, rasgado pelas divisões, com patrulhas cultivando o ódio, pouco existiria daquele país formado com enormes dificuldades, missionado em especial por jesuítas, carmelitas e franciscanos. Dele, recordo lenda bretã, como uma catedral engolida por maremoto, só se ouviria o plangor longínquo dos sinos debaixo de águas revoltas.

Na mesma época, 1935 a 1937, professor na nascente USP, morou entre nós Fernand Braudel (1902-1985). Muitos estudiosos o consideram o maior pensador social e historiador do século 20. Reveladoramente, viu o Brasil com olhar parecido ao de Stefan Zweig: “Foi no Brasil que me tornei inteligente. O espetáculo que tive diante dos olhos era um tal espetáculo de história, um tal espetáculo de gentileza social que eu compreendi a vida de outra maneira. Os mais belos anos de minha vida passei no Brasil”. O que significava para ele ter ficado inteligente?, foi-lhe perguntado. Deu várias respostas. Duas delas: “Fiquei menos banal”. A outra: “Lá eu aprendi a ser feliz”. O espetáculo de gentileza social lhe estimulou a inteligência. Tornou-a mais abarcadora. Nas fontes da gentileza social, o interesse desinteressado [paradoxo aparente] e o apreço pelo “outro”. O “outro” não é o inferno, como na frase de Jean-Paul Sartre [l’enfer, c’est les autres], o “outro”, nessa mentalidade, é a estrada para o paraíso.


 Volto à pergunta de fundo, o que restou do aroma evolado de árvore frondosa, que encantou Stefan Zweig e Fernand Braudel? Raízes, riqueza imensa, ainda que potencial. Distingui-las em nosso radar interior, regá-las, tonifica as melhores fibras do espírito. Sem seu cultivo, o Brasil nunca terá títulos para ser nação com grandeza cristã, mesmo que consiga romper os obstáculos que hoje o impedem de crescer.

domingo, 22 de outubro de 2017

Retratos do Brasil

Retratos do Brasil

Péricles Capanema

A menos de ano da eleição presidencial, não só dela, Câmara, Senado, governadores, na bica, desembocamos na reta de chegada. Como? Deixo alguns vislumbres abaixo. Entre 12 e 16 de outubro o Instituto Paraná Pesquisas executou a especialidade, pesquisou em 64 cidades de Santa Catarina, entrevistando 1.554 eleitores.

Antes dos números alguns lembretes. Em renda per capita o catarinense é o brasileiro mais rico ou quase tanto. Estado ordeiro, boa qualidade de vida, gente acostumada ao trabalho, em média seu habitante é mais escolarizado e informado que no resto do Brasil. Tal perfil sociológico se repete em enormes bolsões de Pindorama. E então, os resultados em Santa Catarina são importantes, mais valem, todavia, como indicativos nacionais. Feitas as adaptações, a pesquisa revela propensões País afora em gente de aspirações, nível de informação e renda, semelhantes às dos catarinenses.

Na corrida presidencial, Bolsonaro lidera (24,6%), seguido por Lula (18,0%), Marina (9,3%), Alkmin (8,2%), Álvaro Dias (7,0%), Joaquim Barbos (5,8%).

Por idade. Entre 16 e 24 anos, Bolsonaro (32,7%), Lula (17,6%); entre 24 e 34 anos, Bolsonaro (34,3%), Lula (15,0%); entre 35 e 44 anos, Bolsonaro (30,6%), Lula (15,6). De outro jeito, a aprovação a Bolsonaro sobe acima da média do Estado e a de Lula cai para abaixo da média na juventude e nos anos em que a pessoa é mais produtiva. Entre os idosos, a tendência se inverte, sobe Lula e cai Bolsonaro. Para os de 60 ou mais, Jair Bolsonaro (11,6%), Lula (21,6%). Aqui pode entrar o receio da mexida nas aposentadorias, que o petista supostamente não faria. Agora, escolaridade. Aumenta a escolaridade, cresce o voto Bolsonaro. Entre os de nível superior, Bolsonaro (31,1%), Lula (10,6%). Finalmente, sexo. O apoio a Bolsonaro é maior entre homens que entre mulheres; homens (32,8%), mulheres (20,1%).

Sob um aspecto, o levantamento mostra, sobe o voto Bolsonaro entre as pessoas que estão pela idade com mais gana de ir para frente e crescer na vida. Buscam ordem, segurança, correção na vida pública. Têm horror de incompetência, bagunça, roubalheira e retrocesso, marcas do PT. Apoiariam incondicionalmente Bolsonaro? Não. De momento simpatizam com uma imagem militar de determinação, um comportamento, algumas convicções. Tanto mais que o deputado ainda não apresentou programa. A maioria desse eleitorado quer privatizações e menor presença do Estado na economia. E não são bem conhecidas as posições atuais de Bolsonaro relativas ao estatismo e ao intervencionismo estatal.

Continuo com pesquisas, agora mais amplas e trabalhadas. Passo a um estudo, cuja matéria-prima são investigações (entrevistadas 1.568 pessoas no Brasil inteiro), realizado e publicado pela Fundação Getúlio Vargas. Título: “O dilema do brasileiro: entre a descrença no presente e a esperança no futuro”.

Algumas de suas constatações: o que mais preocupa 62,3% dos brasileiros é a corrupção (62,3%). Supera saúde pública (49,7%), segurança pública (44,1%), desemprego (39,4%). Para apenas 12,2% o principal problema é a perda de valores morais. E apenas 24,8% julgam que é a educação pública. Outras averiguações do estudo da FGV. 68,4% dos brasileiros são contra qualquer liberalização do aborto, 10,0% a desejam. 39,2% dos brasileiros concordam que os casais homossexuais devem ter os mesmos direitos que os heterossexuais, 31,0% são contra tal possibilidade.

Enorme descrença com a política. Rejeição de 83% ao presidente Temer (apoio de 7,7%), rejeição de 78% aos políticos (apoio de 8,9%), rejeição de 76% aos partidos (apoio de 7,3%). 55% não pretendem votar no candidato presidencial em que votaram na última eleição. No Nordeste, entretanto, 58,7% repetiriam o voto. Três entidades gozam de boa credibilidade: Igreja, apoio de 61% e rejeição de 19,5%; militares, apoio de 45,9% e rejeição de 29,6%; juízes, apoio de 42,2% e rejeição de 32,8%.

Claro, tais fatos se refletem no apreço à democracia entre os brasileiros. Para 44,2% deles não existe democracia no Brasil. Para 20,7%, de alguma maneira, existe.

Volto a números coletados pela Paraná Pesquisas (agora nacionais), relacionados com o tema em análise. Para 70,1% da população brasileira não há diferença entre PT e PSDB. Para 26,9%, existem. Nas eleições para deputado federal em que partido votariam? 18,2% votariam em tucanos. 14,5% votariam em petistas. 63,7% em nenhum dos dois. Perguntados se “o sr(a) seria a favor ou contra uma intervenção militar provisória no Brasil?”, 51,6% se manifestaram contra, 43,1% se manifestaram a favor. Modificada a pergunta: “Caso a justiça não puna os corruptos, o sr(a) seria a favor ou contra a volta dos militares ao comando no Brasil?”, 50,6% se manifestaram a favor, 43,4% contra.

Sei, pesquisas são retratos momentâneos, imprecisas, têm erros de avaliação. Sua importância precisa ser relativizada, em especial no Brasil de divisões ideológicas fluídas, primitivismo, ignorância, desorientação dos espíritos. Informa o site “O Antagonista”, 13% dos eleitores de Bolsonaro têm Lula como segundo candidato; 6% dos eleitores de Lula têm Bolsonaro como segundo candidato. De qualquer maneira, os números representam alertas importantes, mostram quadro, ainda que esboçado, de luzes esperançosas e sombras importantes.


Somos passageiros do ônibus Brasil, trafegamos em velocidade alta em estrada lotada de avisos de curva perigosa, animais na pista, buracos, queda de barreira, cerração. Lá em baixo, na pirambeira, avistamos arrebentada a jardineira Venezuela. Olho aberto, dentro de menos de ano o ônibus poderá sair fora da estrada ou chegar a bom destino. Depende de nós.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O Brasil tem solução?

O Brasil tem solução?

Péricles Capanema

Em relação ao Brasil, a sensação generalizada é de barco à deriva. Em alto mar, ondas revoltas, sem curso faz tempo, vaga o navio com o leme entortado. E pior, arrisca ficar nesse balanço, desgovernado, por muito tempo. Assim está a Venezuela, tão querida do PT, torturada pela esquerda anos sem fim.

O que virá após a abertura das urnas em 7 de outubro de 2018? Teremos Câmara nova (513 deputados), Senado renovado em dois terços (54 senadores), 27 governadores novos e um presidente da república novo (para os últimos dois cargos, talvez segundo turno em 28 de outubro). Norte? O temor é o desnorte.

Vejamos o pior cenário. Já se fala em Brazuela, abismo em que rolaríamos caso Lula ou um preposto, apoiado seu, abiscoite as eleições em 2018, acompanhado por bancadas expressivas na Câmara e no Senado. De momento não parece absurda a hipótese. A última pesquisa Datafolha indica Lula ganhando em primeiro e segundo turno. Venceria Bolsonaro (47% a 33%), Marina (44% a 36%), Alckmin (46% a 32%), Dória (48% a 32%). Em uma das simulações do Datafolha para o primeiro turno, teríamos Lula (36%), Bolsonaro (16%), Marina (14%), Dória (8%), Álvaro Dias (4%), Meirelles (2%), Amoêdo (1%), Brancos/Nulos/Nenhum (16%). Em sentido contrário, para completar o quadro, as principais rejeições: Lula (42%), Bolsonaro (33%), Marina (26%), Dora (26%), Meirelles (25%). Em geral se considera, um candidato com mais de 40% de rejeição dificilmente leva no segundo turno. Outro ponto, começam a circular com certa estabilidade dados de tímida recuperação econômica. Se o fato continuar até as eleições, diminuirá o voto protesto, que de momento na maioria dos casos vai para Lula.

Curto, enorme indefinição, cenário propicio para surpresas em geral ruins. Uma delas: Eunício Oliveira, presidente do Senado, prócer do PMDB, empresário rico, declarou há pouco: “Se não houver um entendimento nacional, se não houver uma aliança local que me obrigue diferente, eu sou eleitor do Lula.”

Lula pode ser condenado em segunda instância pelo TRF-4. Condenado por órgão colegiado, comanda a Lei da Ficha Limpa, ele vira ficha-suja, inabilitado para disputar eleições. Melhorando, representa a interpretação mais generalizada, existem pareceres em contrário. A opinião mais comum, se o caso for julgado pelo TRF-4 antes da eleição e Lula condenado, o ex-presidente terá negado o registro da candidatura. Se o TRF-4 julgar o caso após 15 de agosto (último dia para o registro de candidaturas), Lula, se condenado, tanto pode ter o registro negado ou concorrer sub judice. Se abocanhar a eleição, correrá o risco de não ser diplomado. Ocorrendo condenação após diplomação (meados de dezembro), o diploma pode ser declarado nulo. Contudo, a Constituição determina suspensão do processo para o caso do Presidente da República. Chega, né? Não vou atormentar mais os leitores com desenlaces legais possíveis, dependentes de sentenças dos tribunais. Uma coisa é certa, o cipoal jurídico aumenta o atordoamento no público.

Pretenderia nestas linhas mostrar a trágica falta de rumos da nação, passo inicial de qualquer solução. Para tentar encontrar saída útil faz falta a ideia clara da desorientação geral na brenha de balbucios, palpites, chutes, superficialidades e precipitações. É como acender lamparina na escuridão.

Adiante no mesmo trilho. Faça um teste. Junte quatro amigos ou mais e de chofre lhes pergunte o que acham da situação do Brasil. Na barafunda, aparecerão as mais desparafusadas opiniões. A seguir, indague deles a solução. Se alguém tirar plano da cachola, o mais provável é que todos os outros o julguem despropositado. Mais um pouco de prosa no mesmo assunto e os participantes, antes confusos, sentir-se-ão zonzos. Então o normal será a mudança de tema (fuga). A conversa deslizará para o deboche, futebol, piadas, sei lá mais o quê; ou despencará em pântano depressivo. Esse cavaco é imagem do Brasil. O mais grave de imediato é a espantosa confusão nas cabeças. Desse mato não sai coelho (coisa boa), podem sair cobras, lagartos, lobos.
Antes, cena imaginada; agora, fato de importância. O Estadão noticiou que empresários de peso estavam se articulando para influenciar as eleições de 2018. Pretenderiam pôr de pé o movimento Renova Brasil. Por enquanto, são jantares, encontros, grupos no Whatsapp, artigos, promessas de financiamento. Um desses empresários, que quis o nome preservado, declarou à reportagem: “A gente fala, fala, fala. E tem hora que desanima porque não sabe o que fazer”. Fala, fala, fala, a desorientação. E não sabe o que fazer: são os sem-rumo. Como o Brasil todo. Mesmo sem saber o que fazer, continuam, já é alguma coisa: “Mas estamos buscando uma solução”. Infelizmente não se encontra solução profícua sem saber o que fazer.

Entre os empresários que estão se movimento se destaca o apresentador Luciano Huck; virou presidenciável. Chamo a atenção, um de seus quadros mais populares nos programas de televisão é a ajuda a pessoas que precisam. Retenham isso, o homem tem dó dos pobres.

Pesquisa recente com a pergunta “Quem é o que mais vai defender os pobres?” deu a seguinte resposta: Lula (29,8%), Luciano Huck (12,0%), Bolsonaro (7,1%), Marina (6,7%), Geraldo Alckmin (0,80%). O tucano, e outros tucanos como ele, saíram-se muito mal. Claro, a pesquisa fortaleceu as chances de Luciano Huck. Anotem, ponto a ter sempre em vista em qualquer busca de solução para o Brasil.

Em 28 de julho último publiquei artigo intitulado “Compaixão cruel” em que dizia:“Ao longo dos anos, com altos e baixos, foi comum a votação petista estar em torno dos 30%. As porcentagens parecem indicar, a crise de corrupção e desgoverno dos governos Lula e Dilma não erodiu grave e estavelmente a base social sobre a qual, historicamente, apoia-se o PT. [...] Existem raízes fundas em dois ingredientes dessa base de apoio. Parte dela é composta dos mitomaníacos da igualdade. Por ódio à desigualdade, preferem todos pobres, miseráveis mesmo, desde que não desiguais. Apoiam os irmãos Castro em Cuba e Nicolás Maduro na Venezuela. Apoiariam Stalin e Mao. E votam PT no Brasil. O outro ingrediente vota PT por que julga que o partido, ainda que lotado de ladrões e incompetentes, tem pena dos pobres, trabalha para eles. Pessoas de bom coração sofrem com o sofrimento dos pobres e só por isso o PT merece o voto. Não é indiferente à sorte deles. Tal compaixão, na prática crueldade social grave, favorece a manutenção de regimes que são flagelo para os pobres.”

Volto à estrada e martelo. Ter pena dos pobres no Brasil, real ou ficta, é gigantesco trunfo eleitoral. No contrário, fustigar candidato como adversário dos pobres dá votos. Se Luciano Hulk for o candidato anti-Lula, podem esperar, virão ataques de que ele não se preocupa com pobres, só é amigo dos ricos e vai enriquecer ainda mais os grupos econômicos.

Pergunto: é solução? Ou, pelo menos, representa passo no caminho da solução? Prematura a resposta. Se a candidatura se consolidar, vai depender do programa. O apresentador publicou artigo na Folha, generalidades vistas com simpatia pelo público, soou como começo de jogo. Quer na política ética, compromisso, altruísmo. Quem os tiver será bem-vindo: “A renovação política passa por eles, não importa se de esquerda, direita, centro. Tanto faz”. Tanto faz nada. Preocupa. Importa muito ser de centro, direita ou esquerda. Pode ter um programa estatista, libertário, favorecedor do comunismo, mas se não puser dinheiro público no bolso, tiver compromisso com o povo e não for egoísta, está bem? Stalin caberia dentro. O PSOL, à esquerda do PT, alardeia isso.

A exposição Queermuseum, propaganda até da zoofilia, e as cenas blasfemas do MASP, gravíssimas ofensas a Nossa Senhora, pela repercussão no Brasil inteiro, mostram que provavelmente os assuntos morais e religiosos influenciarão muito as eleições de 2018. A ideologia do gênero, ideologia xodó das esquerdas e das correntes libertárias, desperta reações fortíssimas no público, com potencial para abater candidaturas. Frente a tudo isso, qual a posição de Luciano Hulk e dos outros candidatos? A seu tempo, precisarão se manifestar.

Hora de acabar. A solução de fundo supõe ▬ haverá muita coisa mais ▬, fortalecimento da família. Maior influência da religião, moralidade pública geral. Na prática temos desagregação familiar, religião em queda e corrupção de alto a baixo. Nem falo aqui do recurso sério a Deus, único caminho que nos levaria a soluções realmente salvadoras.


E de imediato? Tudo indica, lamento, teremos forte componente populista nas eleições de 2018. Na esteira do populismo, virão programas esquerdistas, até de natureza extremada, rota péssima para o Brasil. E a demagogia vai correr solta para fazê-los vitoriosos. Precisam ser denunciados e combatidos, claro. Já agora em esfera pessoal, reclamemos dos candidatos compromissos claros favorecedores da família, da moralidade, da livre iniciativa. Inexistindo, não terão o voto. Já é lamparina na escuridão, medida cautelar contra maiores desastres pós-2018.

sábado, 30 de setembro de 2017

Maçã envenenada

Maçã envenenada

Péricles Capanema

Maçã é ótimo. An apple a day keeps the doctor away, garante velho brocardo inglês. Se podre, pode intoxicar, até matar. Vou falar sobre leilão de privatização, realizado na Brasil, Bolsa, Balcão (B3) em São Paulo. Dele se gabou o presidente Michel Temer no twitter (27 de setembro): “Nós resgatamos definitivamente a confiança do mundo no Brasil. Leilão das usinas da Cemig rendeu R$12,13 bilhões, acima das expectativas do mercado”.

Não vejo motivos para gabolices. Podem ser passos rumo ao abismo. Privatização? O governo passou à iniciativa privada (iniciativa privada?) quatro usinas da CEMIG (Companhia Energética de Minas). São concessões por 30 anos, prorrogáveis. Com isso, a estatal mineira perdeu 36% de sua capacidade de geração.

A maior delas, a usina São Simão, tem potência instalada de 1.710 megawatts (58% do total oferecido). A seguir, a Jaguara, 424 (15%), a Miranda, 408 (14%), finalmente a Volta Grande, 380 megawatts (13%).  O maior lance, natural, foi para a Usina de São Simão, 7,2 bilhões de reais, ágio de 6,51%. Arrematou-a o grupo chinês SPIC Pacific Energy, estatal, tem 140 mil empregados. Lembro o óbvio: é dirigido pelo governo e Partido Comunista Chinês. Num só lance, o Partido Comunista chinês passou a controlar 21% da anterior capacidade de geração da CEMIG. Não pode ser diferente, o grupo SPIC vai atuar no Brasil em consonância com os interesses do governo e do Partido Comunista da China.

Todos estão enxergando, o setor elétrico no Brasil, sob silêncio pesado, vai caindo no colo dos comunistas chineses (não só o setor elétrico, os tentáculos vão bem além dele). Voz isolada, mais de um ano atrás, a jornalista Maria Luíza Filgueiras, na Exame, alertou: “A bagunça causada pelo governo Dilma e a crise da Lava-Jato estão entregando, de mão beijada, o setor elétrico brasileiro para um grupo de estatais chinesas”.

Em geral, a investida do comunismo chinês sobre setores da infraestrutura brasileira vem sendo acobertada entre nós por um mantra: aplicações de investidores estrangeiros. Pululam na imprensa manchetes sobre tais aplicações. Soa simpático. À vera, age como bruxedo aliciador e embusteiro por ocultar cavilosamente ponto essencial: o poder na China é imperialista, totalitário, coletivista e ateu. Pelo menos em uma coisa somos campeões, no emprego de eufemismos irresponsáveis e covardes.

A Jaguara foi arrematada pelo Consórcio Engie Brasil Energia S.A e Engie Brasil Energia Comercializadora, 2,2 bilhões de reais, ágio de 14%. A Engie é um conglomerado francês. Segundo o site do grupo, 28,65% do seu capital pertence ao Estado, que tem 36,68% dos votos. É acionista determinante, informa a imprensa francesa. A Miranda também foi arrematada pela Engie, 1,4 bilhão de reais, ágio de 22%.

A Volta Grande, por 1,4 bilhão de reais, ágio de 10%, ficou com a Enel, italiana, da qual o Ministério da Economia e Finanças detém 21% das ações.

Continuo no setor elétrico. Wilson Ferreira Junior, presidente da Eletrobras, especializada desde décadas em dar prejuízos amazônicos aos contribuintes brasileiros, foco do próximo escândalo (o eletrolão, se começarem a investigar o setor) anuncia enérgicos planos de recuperação. A estatal que, além dos prejuízos estratosféricos, gera mais de 30% da eletricidade no Brasil e detém 47% de sua rede de distribuição está agora combatendo a elefantíase que a acomete desde o nascimento, mais de 50 anos atrás. Cortou 700 cargos de gerentes (com isso melhorou a gerência da empresa). Tinha 11 softwares de gestão, vai reduzir a um. Avisa Ferreira Júnior: “Para a contratação do sistema operacional único, nós levamos oito meses, enquanto uma empresa privada faz isso em dois”. Vai adiante: “Vendemos a Celg com 28% de ágio e as outras seis empresas de distribuição serão vendidas até o fim do ano. E temos 74 sociedades de propósito especifico à venda, sendo que 58 delas são de energia eólica, e o restante, de transmissão. As vendas vão fazer com que a dívida da Eletrobras caia 6 bilhões de reais, para 17 bilhões”. Sobre as distribuidoras constatou: “Geram prejuízos, empregam 6 mil pessoas”. Imagina o futuro: “A Eletrobras é uma holding que tem quatro ativos principais: Furnas, Chesf, Eletronorte e Eletrosul. Acredito na transformação da Eletrobras numa empresa brasileira como a Embraer. O governo não seria mais o controlador”. Alerto agora eu: com base no que vem acontecendo: a China comunista vai ficar com parte importante desses ativos.

A privatização de si é ótima: traz racionalidade de custos, produtividade, competitividade, melhores serviços aos usuários. Diminui o poder do Estado sobre o cidadão, acaba com rombos orçamentários que pesam no cangote do contribuinte. Permite que o dinheiro público poupado da ineficiência, gastança e corrupção seja empregado em escolas, postos de saúde, tanta coisa mais. Ainda lembro, aumenta riquezas, gera renda, cria empregos. Bastaria o exemplo do setor da telefonia no Brasil. Nada disso coloco em tela de juízo. E nem proponho políticas nacionalistas, reservas de mercados, fechamentos ao capital estrangeiro.

Só destaco o óbvio ululante: inscientes (o mínimo), estamos criando gravíssimo problema de segurança nacional com a entrega a potências estrangeiras, mais especificamente, ao comunismo chinês, de setores-chave da economia nacional, em geral infraestrutura. Segurança nacional é irmã gêmea de independência nacional.

Todos estão vendo, cada vez mais a China hoje se ergue como o grande adversário dos Estados Unidos e o Brasil, se não acordar, caminha para ser peão chinês desse jogo. Coerentemente, também não vejo com tranquilidade estatais de outros países gerindo parte importante da riqueza nacional. Elas são instrumentos de governos, que vão e vêm segundo eleitorados instáveis. Privatizar deveria significar o que é: entrada do capital privado, nacional ou estrangeiro, em setores antes controlados pelo Estado.


Estamos diante de indiferença suicida, anestesiadas misteriosamente as fibras do patriotismo e da religião. Em 1453 caiu Constantinopla. Ainda havia resistência na cidade sitiada, mas, dizem historiadores, os bizantinos por descuido deixaram semiaberta o portão da muralha noroeste. Por lá entrou destacamento otomano e decidiu a batalha. Temamos portões deixados abertos por descuidos, otimismos e superficialidades.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Adiamento perigoso

Adiamento perigoso

Péricles Capanema

Não vou tratar hoje de assunto agradável. Momentoso, sim, necessário; para muitos, distante. Em 30 de setembro de 1938 Neville Chamberlain, primeiro-ministro inglês, voltando de Munique, após encontro com líderes da Alemanha, Itália e França, pronunciou célebre discurso prometendo “paz para o nosso tempo”. As tratativas do premir inglês, levadas a cabo no quadro da política de appeasement, pareciam ter varrido do horizonte o monstro da guerra na Europa. Um ano depois, na madrugada de 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia. Em resposta, a França, o Reino Unido e a Commonwealth declaravam em 3 de setembro a guerra à Alemanha. Começava a 2ª Guerra Mundial.

Na ocasião isolado e incompreendido, um velho político inglês trovejou contra os chamados acordos de Munique: Winston Churchill. A ele foi atribuída a frase endereçada a Chamberlain: “Tínheis a escolher entre a vergonha e a guerra. Escolhestes a vergonha, tereis a guerra”. Retrata com fidelidade sua posição no Parlamento ninado pelo fascínio da paz. De fato, afirmam estudiosos da obra do antigo primeiro-ministro, tal frase nunca foi dita, a legenda terá origem em carta de 13 de agosto de 1938, endereçada a Lloyd George: “Penso que nas próximas semanas teremos de escolher entre a guerra e a vergonha e tenho poucas dúvidas sobre qual decisão tomaremos”. A legenda tem direitos, simpáticos, aliás; tantas vezes põe cor, relevo e nitidez na realidade.

Desde a ascensão do nazismo ao poder, Churchill lutara pelo rearmamento inglês e recusava contemporizações que, para ele, tornariam mais devastador, sofrido e problemático o confronto que via inevitável. Na prática, a Alemanha nazista se utilizou do tempo ganho nas tratativas para se armar ainda mais e preparar melhor as agressões.

Como pesadelo, tudo isso me veio à cabeça ao ler as sanções impostas de forma unânime pelos 15 membros Conselho de Segurança da ONU à Coreia do Norte, como resposta à explosão da bomba nuclear em 3 de setembro último. É a sexta bomba coreana e a nona sanção da ONU, a primeira de 2006. Em cada vez, a situação se apresenta mais grave.

Para obter a unanimidade no Conselho de Segurança, os Estados Unidos aceitaram aguar a proposta inicial. Por causa da oposição da Rússia e da China, desistiram da suspensão total das exportações de petróleo para a Coreia do Norte e congelamento dos bens do ditador Kim Jong-Un. Liu Jieyi, embaixador da China, reiterou que a solução da crise deve ser por meios “pacíficos, diplomáticos e políticos”. Enfatizou ainda que outros países não devem buscar o fim ou o colapso do regime de Pyongyang, nem defender a reunificação apressada da península. Em resumo, duas condições inegociáveis impostas pela China: fica o regime, fica Kim Jong-Un. Terceira, a reunificação por enquanto não está na pauta.

Quanto às sanções, elas proíbem importações de produtos têxteis da Coreia e suspendem novas contratações de trabalhadores norte-coreanos no Exterior. Ninguém garante que a China, nem países da região as respeitarão. Como Cuba com seus médicos, para funcionar no mínimo, a Coreia do Norte precisa mandar trabalhadores para o Exterior, retendo (expropriando) o grosso do salário. Trabalham 95 mil coreanos fora, a maior parte na Rússia e na China. A resolução limita ainda a venda de petróleo à Coreia do Norte, o teto ficou em 2 milhões de barris por dia para produtos refinados. Também não há certeza de que a China, a maior fornecedora, obedecerá ao limite.

Nem vou continuar. Em artigo para o Washington Post intitulado “Por que as sanções não funcionam?”, reproduzido no Estadão, 15 de setembro, Adam Taylor constata: “A Coreia do Norte está sob sanções da ONU desde 2006. Com o tempo elas se tornaram mais fortes e outros países e entidades, incluindo Estados Unidos e União Europeia também impuseram medidas unilaterais”. O articulista põe o dedo na ferida: “China e Rússia, dois dos mais importantes parceiros comerciais da Creia do Norte, hesitam em aplicá-las”. Em parte, sanções para inglês ver.

A reação da Coreia do Norte foi violenta, compõe bem o cenário. Prometeu acelerar o programa nuclear, “redobrar esforços para incrementar seu poderio”. Nada de inesperado.

Os Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão afirmaram estar preparados para fazer mais pressão, caso Pyongyang se recuse a cessar o desenvolvimento de seu arsenal nuclear. Daqui a um ano, dois, quando se constatar que a Coreia não mudou o rumo, a situação estará pior que hoje. Virão novas sanções? E assim, até quando?

Claro como água do pote, a Coreia do Norte está caminhando para ser potência nuclear com capacidade de transportar bombas em foguetes transcontinentais. E, como reação lógica, está crescendo no mundo político e na opinião pública em geral no Japão e na Coreia do Sul a exigência de que esses dois países se armem nuclearmente. No futuro, ruminam, o que poderá valer o guarda-chuva norte-americano, seguro por líderes que bradam o “America first”?


Parece-me óbvio, os Estados Unidos têm os meios para resolver a contento a questão. Preocupa, cada adiamento aumenta em muito os custos da solução. Lembro outra frase de Winston Churchill: “Você pode sempre confiar em que os norte-americanos farão a coisa certa ▬ depois de tentarem todo o resto”.

domingo, 10 de setembro de 2017

O dever de ajudar a Venezuela

O dever de ajudar a Venezuela

Péricles Capanema

Normal seria hoje comentar a sórdida corrupção revelada nos últimos dias. Contudo, não será meu foco. Quero falar de fato alvissareiro.

Do pântano, destaco, porém, andrajo enlameado, não o vi ainda apontado: a indiferença suicida. Antônio Palocci falou do “pacto de sangue” entre Emílio Odebrecht e Lula. Sponte propria, o dono da empreiteira teria oferecido ao ex-presidente, no intuito de preservar a relação privilegiada da empresa com o governo, pacote que incluía um sítio (presente pessoal), a sede do Instituto Lula, palestras a R$200 mil líquidos, pagos os impostos, e ainda R$300 milhões, uso livre, para custear atividades políticas (claro, poderia também cobrir gastos pessoais).

Em apenas uma das doações, um dos maiores representantes do macrocapitalismo brasileiro pôs R$300 milhões à disposição da propaganda petista. É montanha de dinheiro para dar popularidade a programa que acarreta empobrecimento generalizado, atraso e sofrimento para o povo em geral. Clara opção preferencial pela pobreza e tirania, como em Cuba e Venezuela, onde, aliás, a Odebrecht financiou generosamente as campanhas de Chávez e Maduro. A mais, fortalece programa favorecedor do coletivismo e do intervencionismo. Da parte da cúpula da empreiteira, pelo que se percebe, indiferença total, suicida, com a agressão aos interesses do Brasil, do empresariado e do povo em geral. Passo ao agronegócio. Constato ali, temo que generalizada, a mesma indiferença suicida. Depoimento de Joesley Batista, dos maiores pecuaristas, se não o maior, do Brasil: “Ele [Lula] me ligou esses dias, pediu para mim [sic!] atender os sem-terra. Eu digo ‘ô presidente’(risos) ‘Joesley, eu tô aqui com o [João Pedro] Stédile não sei o que ele precisa falar com você’ ...’Tá bom, presidente, manda ele vir aqui. Eu atendo ele, tá bom’”. No meio do riso, a promessa tácita de financiamento do MST. E o MST iria utilizar o dinheiro, sabia-o Joesley, para agredir os fazendeiros e favorecer o comunismo no Brasil. O mais grave, não são dois exemplos isolados. São exemplos sintomáticos, são sem-número os casos parecidos na política, na religião, nos negócios, nas escolas. Tal insensibilidade morfética provavelmente constitui a pior ameaça ao nosso futuro de nação próspera, ocidental e cristã.

Falei da Venezuela. A boa notícia vem de lá. O Episcopado, por suas figuras mais expressivas, está reagindo energicamente contra a tirania chavista. E o fato, reatividade de organismo vivo, tem importância enorme para a Igreja e para a sociedade.

Cinco bispos, dos quais dois cardeais, solicitaram audiência ao Papa Francisco para expor a grave situação do país. A agenda já estava pronta. Greg Burke, o porta-voz do Vaticano garantiu, haveria “um rápido cumprimento”. Antes do encontro, já em Bogotá, um dos cinco, dom Jesús González, bispo auxiliar de Caracas, declarou publicamente, esperavam ser recebidos. Óbvio, não apenas para “cumprimento rápido”. Após a missa celebrada no Parque Simón Bolivar em Bogotá o Papa falou com eles. Melhor talvez, ouviu-os. A delegação era formada, como disse, por dois cardeais, dom Jorge Urosa, arcebispo de Caracas, dom Baltazar Porras, arcebispo de Mérida, dom José Luis Azuaje, bispo de Barinas, dom Mario Moronta, bispo de San Cristóbal, e dom Jesús González. A respeito do encontro, a Conferência Episcopal Venezuelana [presidente, dom Jorge Urosa; vice-presidente, dom José Luis Azuaje] emitiu comunicado forte e expressivo: “O Pontífice mostrou sua preocupação pela agudização da crise humanitária, manifestada na fome e na escassez de remédios, bem como pela emigração de numerosos venezuelanos. Também foi informado da imposição da Assembleia Nacional Constituinte e da perseguição que alguns dirigentes, ameaças a sacerdotes e religiosas e fechamento de meios de comunicação social”.

De outro lado, pouco antes, na 5ª feira, o arcebispo de Caracas havia denunciado ao diário El Tiempo, o principal de Bogotá: “É claro que existe uma ditadura na Venezuela, já que foi anulado o Parlamento. A seguir foi instituído um órgão absolutamente inconstitucional, torpe e fraudulento, a Assembleia Nacional Constituinte. É um sistema ditatorial em que não há divisão de poderes e não se respeitam os direitos fundamentais, ou seja, nem os estabelecidos na Constituição Nacional”.

No quadro de aberta oposição da Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) ao governo Maduro, um de seus órgãos, a Comissão Justiça e Paz em documento assinado por dom Roberto Lückert León, presidente (antigo arcebispo de Coro) afirma o seguinte: “A Comissão Justiça e Paz, considerando a situação, tanto dos presos políticos, como dos presos comuns, evidenciada nas denúncias de familiares e do Observatório Venezuelano de Prisões, nas quais se descrevem tratamento cruel e desumano nos traslados e nos próprios centros de reclusão, situações anti-higiênicas, alimentação precária, falta de remédios, falta de assistência jurídica, impedimentos para visitas de familiares e falta de assistência médica. Exigimos que cesse a caça às bruxas contra os cidadãos que não pensam como o regime; exigimos que a família do general Raul Isaias Baduel seja informada de seu paradeiro e estado de saúde. Esta comissão eclesial exige o fim da perseguição, da tortura física e psicológica que indica sanha e violência contra tais cidadãos. Exigimos justiça. Caracas, 10 de agosto. Dom Roberto Lückert León, presidente.

Outro órgão da CEV, a Rede Latino-americana e Caribenha de Migração assim se manifestou: “Queremos manifestar nossa solidariedade ao povo venezuelano que nesse momento vive uma crise humanitária, caracterizada pela escassez de alimentos e remédios, colapso dos serviços públicos, inflação mais alta do mundo, violência sem limites e graves violações dos direitos humanos. A Conferência Episcopal Venezuelana assinalou profeticamente: ‘Em nosso país se percebe de forma muito clara como a violência adquiriu caráter estrutural. São muitas suas expressões’. Esta situação que atenta contra a vida e a dignidade dos venezuelanos e venezuelanas, forçou milhares e milhares a deixar o país, em diáspora sem precedentes”.


Cada um ▬ sem nenhuma indiferença, que no caso teria uma nota suicida ▬, em seu âmbito, precisa ajudar a Venezuela enfraquecida a sair do abismo, no momento em que forças poderosas a empurram para mais fundo. Rússia, China, Nicarágua, Bolívia, assim como o PT e vários partidos de esquerda no Brasil trabalham a favor da clara opção preferencial pela tirania e pela fome na Venezuela. É gravíssimo. Um lembrete. Temos aqui ótima ocasião para que a CNBB, abandonando sua conduta de dócil companheira de viagem das causas da esquerda, apoie com força sua brava coirmã, a CEV. Exposta ao perigo, increpando exclusões, a CEV leva adiante cruzada em defesa do povo humilde e da nação perseguida. A mudança de rumos, tomara, será sintoma de que, por fim, a CNBB começou a ouvir os clamores do povo. O bom exemplo edificaria a todos os brasileiros.